Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

O CASO ESPECIAL DA ALEMANHA

Kurt Lewin

(1943)

PROGRAMA DE FORMAÇÃO DE COORDENADORES DE DINÂMICA DE GRUPO / 
PROGRAMA DE FORMACION DE COORDINADORES DE DINAMICA DE GRUPO

 Antes de Pearl Harbor, provavelmente mais nos Estados Unidos que em qualquer outro país, discernia-se uma tendência deveras forte de considerar fatores psicológicos como frustração ou "traços destrutivos", a causa fundamental da guerra.  Por conseguinte, evitar a frustração era considerado o principal caminho para a paz.  A partir de então, parece predominar uma visão mais realista da importância dos aspectos políticos e econômicos.  Deve ser bem-vinda esta alteração de sentimentos, embora exista atualmente o perigo de o pêndulo ir longe demais na sua oscilação e somente os aspectos políticos passarem a ser considerados importantes.  Ao planejar a paz e ao pensar na conduta internacional futuro dos outros países e do nosso, devemos compreender também que, em última análise, os fatores psicológicos, e particularmente os culturais, são essenciais.

Dessarte, tem-se afirmado muitas vezes que o hitlerismo não passa de uma versão extrema daquela tradicional cultura militarista prussiana que em grande parte governou a Alemanha, desde a fundação do Reich.  Não há necessidade de decidir aqui se isso é verdade ou até que ponto é verdade.  Seria mais importante conhecer em detalhe quão profundamente a cultura nazista está hoje arraigada nos diversos setores da população.  Embora tal pergunta não possa ser totalmente respondida agora, pode-se supor com segurança, que o Nazismo esteja profundamente enraizado, principalmente na juventude, da qual depende o futuro.  É uma cultura centralizada no poder como valor supremo e que denuncia repetidas vezes a justiça e igualdade entre os homens como restos repugnantes de uma democracia decadente.

O problema seria menos grave se os ideais do egocentrismo e desapiedada autoridade estivessem limitados ao comportamento marcial.  Infelizmente, os mesmos valores penetraram todos os aspectos da cultura alemã, inclusive a vida de família.  Milhões de crianças, mulheres e homens indefesos foram exterminados por sufocação ou outros meios nos países ocupados, durante os últimos dois anos, e outros são mortos
diariamente ainda.  Dezenas de milhares de alemães devem ter-se habituado a servir, como questão de rotina, nos esquadrões de extermínio ou em outros setores, na grande organização dedicada a esse fim.  Tal exterminação sistemática tem sido levada a cabo com o objetivo expresso de garantir, nas gerações vindouras, a supremacia alemã sobre os países vizinhos.  Na questão de relações internacionais e de
salvaguarda da paz, é particularmente perigoso considerar tal matança como o direito natural do vencedor sobre os vencidos, ou do Herrenvolk sobre as raças inferiores.

Antes de discutir os problemas de como se poderia realizar uma mudança, o objetivo deve estar claro.  No tocante à Alemanha, esse objetivo não pode ser uma cópia da maneira de viver dos ingleses ou dos norte-americanos.  Aconteça o que acontecer, a cultura resultante será algo especificamente alemão.  Apresentará traços de sua história e das atuais experiências extremas de guerra e nazismo.  Isto continuaria a ser verdade mesmo que a nova cultura alemã se tornasse inteiramente democrática.

Existe mais uma razão para lutar por uma cultura "alemã democrática" e não por uma cultura norte-americana ou inglesa.  A limitação do princípio democrático de tolerância para com os outros é definida pelo máximo de "intolerância democrática para com a intolerância."  Esse direito e dever de intolerância é muito importante para que a democracia sobreviva em qualquer parte do globo.  Todavia, tal princípio não exige conformismo; limita o nosso interesse legítimo a algumas exigências mínimas, que provavelmente não são demasiado diferentes das exigências mínimas para uma paz internacional.

MUDANÇAS CULTURAIS DE INDIVÍDUOS E NAÇÕES

Mesmo formulada desta maneira, uma mudança para a cultura democrática alemã inclui obviamente problemas muito difíceis.

Não existe outra questão que não seja a de que a cultura de indivíduos ou pequenos grupos pode ser profundamente mudada, num período de tempo relativamente curto.  Em geral, uma criança transplantada da Alemanha ou do Japão para os Estados Unidos se tornará totalmente americanizada.  Até adultos transplantados para uma cultura diversa podem assimilar em grau considerável a nova cultura e, nesse sentido, muito se pode fazer através de educação adequada.  Experimentos com crianças e adultos provam que é possível mudar profundamente a atmosfera social de grupos pela introdução de formas diferentes de liderança.  Experimentos de treino de liderança demonstraram que é até possível, em determinadas circunstancias, transformar em curto prazo antigos líderes deveras autocráticos em eficientes líderes democráticos.

Todavia, todas essas mudanças são mudanças de indivíduos ou de pequenos grupos, numa direção que concorda com alguns aspectos do ambiente cultural geral em que vivem tais indivíduos ou grupos.  Mudar a cultura de uma nação inteira é empreendimento muito diferente.  O grande número de pessoas implicadas é apenas uma das dificuldades.  Mais importantes ainda são certas relações dinâmicas entre os vários
aspectos da cultura de uma nação – tais como educação, costumes, comportamento político, concepções religiosas – que atuam uns sobre os outros de uma forma que tende a reconduzir à situação anterior todo desvio da cultura estabelecida.

Não temos espaço aqui para discutir em pormenor essa dinâmica.  Limito-me a lembrar ao leitor que a diferença, por exemplo, entre a cultura norte-americana e a alemã pode ser percebida mais ou menos em toda parte de suas respectivas vidas culturais: na maneira de a mãe tratar o filho de dois ou três anos, no que o pai fala à mesa, na maneira de o operário falar com seu contramestre ou o aluno com o professor, na
maneira de as visitas tratarem adultos e as crianças, na maneira de escrever livros de receitas culinárias, na maneira com que se tratam os advogados contrários após o julgamento, no tipo de fotografia que o candidato a cargo político utiliza na propaganda, e o que significa a religião para uma pessoa de qualquer seita religiosa.  Uma mudança cultural, no tocante a um item específico, terá de ser capaz de suportar o peso dos mil e um itens do restante da cultura, que tendem a reconduzir a conduta ao antigo padrão.  Como disse alguém: "as culturas são muito impermeáveis".

Podemos concluir: para ser estável, uma mudança cultural precisa penetrar mais ou menos em todos os aspectos da vida de uma nação.  Em suma, a mudança deve ser uma mudança de "atmosfera cultural", não apenas uma mudança de itens isolados.

ASPECTOS GERAIS DA MUDANÇA CULTURAL

1.  A cultura como equilíbrio.  Uma cultura não é um quadro pintado; é um processo vivo, composto de inúmeras interações sociais.  Como um rio, cuja forma e velocidade são determinadas pelo equilíbrio entre aquelas forças que tendem a fazer a água correr mais depressa, e a fricção que tende a fazer a água fluir mais devagar, o padrão cultural de um povo, numa época dada, é mantido por um equilíbrio de forças em
contraposição.  O estudo das culturas em menor escala indica que, por exemplo, o ritmo de produção ou outros aspectos da atmosfera de uma fábrica, por exemplo, têm de ser compreendido como um equilíbrio, ou mais precisamente, como um "equilíbrio em movimento".

Depois de estabelecido um determinado nível, certos processos auto-reguladores começam a funcionar para manter a vida do grupo naquele nível.  Fala-se de "hábitos de trabalho", "costumes estabelecidos", a "maneira aceite de fazer as coisas".  Ocasiões especiais podem ocasionar um aumento de produção momentâneo; um festival pode criar, durante um ou dois dias, uma atmosfera social diferente entre a administração e os operários, mas rapidamente desaparecerá o efeito da "injeção no braço" e a constelação básica de forças restabelecerá as antigas formas de vida diária.

Portanto, o problema geral de mudar a atmosfera social de uma fábrica ou da cultura alemã pode ser formulado, com um pouco mais de precisão, da seguinte maneira: como é possível provocar uma situação que mude permanentemente o nível em que forças antagônicas encontrem o seu equilíbrio virtualmente estacionário?

2.  Mudando a constelação de forças.  Para efetuar qualquer mudança, cumpre perturbar o equilíbrio entre as forcas que mantêm em determinado nível a auto-regulação social.

No caso da Alemanha, isto implica que alguns poderes fundamente enraizados têm de ser desarraigados.  Grande proporção daquelas camadas da população alemã de que dependerá uma reconstrução democrática vive agora num estado de repressão e terror.  É difícil conceber que essas pessoas sejam capazes de agir livremente enquanto virem vivos e livres, no outro lado da rua, a Gestapo ou outros responsáveis por dez anos de terror.  Após a última guerra (a Primeira Guerra Mundial) as forças reacionárias da Alemanha, embora compelidas ao disfarce, tiveram oportunidade de "levar a melhor".  Como formavam um grupo socialmente bem unido, logo começaram a voltar, gradualmente e tomar vingança sob a forma extremada de hitlerismo.  Não vejo esperança de mais que uma mudança superficial depois desta guerra, se o povo alemão for impedido de livrar-se, de modo completo, de um vasto grupo que desenvolveu à perfeição os métodos mais impiedosos de extermínio.  Atualmente, sabe-se que esse grupo já se prepara para ingressar na clandestinidade; se as forças de fora da Alemanha, por temerem algum tipo de "caos", impedirem sua total destruição, ele continuará a ser uma poderosa ameaça.

Depois da última guerra, o movimento alemão para a democracia não malogrou pelo fato de a chamada Revolução Alemã de 1918 ter sido demasiadamente caótica, e sim porque a deposição do Kaiser foi inteiramente incruenta e não teve profundidade suficiente.  Não foi suficientemente profunda, no nível social, para destituir do poder determinados grupos da população e, culturalmente, não atingiu profundidade suficiente para afastar a idéia de democracia de sua identificação com a liberdade individualista do tipo laissez faire.  Para alcançar o fim desejado – um avanço na direção da democracia e da paz permanente – uma revolução na Alemanha deveria, portanto, ser considerada como um fator positivo, não negativo.

3. Estabelecendo um novo padrão cultural.  É preciso estabelecer (ou liberar) as forças para o novo equilíbrio, enquanto se destroem as forças mantenedoras do antigo equilíbrio.  Não só é essencial criar a fluidez necessária para a mudança e realizar a mudança como é também imprescindível que sejam tomadas medidas para possibilitar a permanência da nova situação, através da auto-regulação no novo nível.

Suponhamos que a situação na Alemanha venha a ser suficientemente fluida.  Pode-se fazer alguma coisa no sentido de ajudar a se aproximarem da democracia as forças capazes de estabelecer um novo nível de equilíbrio?  Das muitas considerações a respeito, mencionarei apenas algumas.

1.  A "satisfação" não basta.  Se forem satisfeitas as muitas necessidades do povo alemão, não bastará isso para torná-lo democrático?  Essa idéia, muito comum antes de os Estados Unidos entrarem na guerra, pode ressurgir novamente logo que termine a guerra com a Alemanha (embora dificilmente se possa difundir nos Estados Unidos, com referência aos japoneses).  Tais sugestões se baseiam na idéia ingênua de que "natureza humana" seja o mesmo que "cultura democrática"; que basta destruir as causas do desajustamento para criar um mundo democrático.

Tive oportunidade de observar bem de perto um jovem que fora membro ativo do Movimento da Juventude Alemã, antes de Hitler.  Mais tarde, fora arrebanhado pelos nazistas e feito assistente de um líder da juventude distrital, durante alguns anos.  Por alguma razão, fugiu do país e tornou-se politicamente antinazista.  Esse indivíduo apresentava sintomas marcantes de desajustamento, tais como agressividade e egocentrismo.  Rapaz esperto, abriu seu caminho, aprendeu as amenidades do estilo norte-americano, e apresentava uma aparência cordial e agradável.  Ao fim de alguns anos, parecia estar muito bem ajustado e era geralmente considerado como um sujeito amável.

Só os que o conheciam intimamente e lhe acompanharam de perto as ações por longo tempo, podiam ver que, na verdade, seu comportamento se tornara ainda mais insidioso que antes.  Dotado de percepção excepcionalmente aguda das relações de status e poder, o rapaz descobria imediatamente quais os amigos, quais os inimigos, onde estava a força ou a fraqueza de cada um, ou quais as idéias mais em voga no
momento.  Com base nesse íntimo conhecimento, rapidamente adquirido, das relações de poder, levava a cabo, com extremos de agressividade, uma política ativa, egoísta, mentindo sem inibição e forjando destrutivos ataques frontais com uma esperteza de pasmar.  Não pude deixar de sentir que se tratava de um caso praticamente "puro" de cultura nazista.  Essa agressividade não diminuiu, antes aumentou e se tornou mais perigosa, à medida que o indivíduo, sem mudar a sua cultura básica, foi adquirindo segurança pessoal.

Acho que este é um exemplo claro do fato de que, numa cultura agressiva e autocrática, a agressão e o comportamento autocráticos não podem ser considerados sintomas de desajustamento.  Não podem ser fundamentalmente mudados pela mera satisfação das necessidades do indivíduo.

2.  Alguns princípios gerais positivos.  Em diversos campos, os estudos de vida de grupo sugerem alguns princípios gerais para a mudança da cultura do grupo.

(a)  A mudança deve ser mais uma mudança da atmosfera de grupo que de itens isolados.  Já discutimos esse problema.  Tecnicamente, significa que não se pode efetuar a mudança pela aprendizagem de estratagemas.  A mudança tem de ser mais profunda que o nível verbal ou o nível das formalidades sociais ou legais.

(b)  Pode-se demonstrar que o sistema de valores que orienta a ideologia de um grupo se liga dinamicamente a outros aspectos de poder, dentro da vida do grupo.  Isso é verdade tanto psicológica quanto historicamente.  Portanto, toda mudança real da cultura de um grupo está interligada com a mudança da constelação de poder interior do grupo.

(c)  A partir desta perspectiva, compreende-se facilmente porque uma mudança nos métodos de liderança é provavelmente a maneira mais rápida de efetuar uma mudança na atmosfera cultural de um grupo.  Pois a chave da ideologia e da organização da vida desse grupo é o status e o poder do líder ou do setor de liderança de um grupo.

3.  A mudança de autocracia em democracia.  Os experimentos com grupos e treinamento de liderança sugerem as seguintes conclusões:

(a)  A mudança da atmosfera de um grupo, da autocracia ou laissez faire para a democracia, através de um líder democrático, corresponde a uma reeducação dos liderados para a "obediência democrática".  Toda atmosfera de grupo pode ser concebida como um padrão de desempenho de papel.  Sem os liderados estarem prontos para desempenhar seus papéis, como cumpre, é impossível ao líder desempenhar o dele,
seja autocrático ou democrático.  Se os membros do grupo não forem capazes e não estiverem prontos para assumir as responsabilidades que são essenciais para os liderados numa democracia, o líder democrático ficará inerme.  Portanto, mudar a atmosfera de um gruo de autocracia em democracia, através da liderança democrática, significa que os adeptos da autocracia devem mudar para uma aceitação autentica do papel de adeptos da democracia.

(b)  Os experimentos mostram que não é possível realizar tal mudança de papéis com uma política de "não intervenção".  A aplicação do princípio da "liberdade individualista" leva unicamente ao caos.  Às vezes, é preciso impor às pessoas o sentido das responsabilidades democráticas para com o grupo como um todo.  É verdade que as pessoas não podem ser preparadas para a democracia através de métodos autocráticos.  Todavia, também é verdade que, para poder mudar a atmosfera do grupo para a democracia, o líder democrático tem que estar no poder e utilizar seu poder para uma reeducação ativa.  Não temos espaço aqui para uma discussão minuciosa do que, para alguns, poderia parecer um dos paradoxos da democracia.  Quanto mais os membros do grupo se converterem à democracia e aprenderem a desempenhar os papéis da democracia como líderes ou liderados, tanto mais o poder do líder democrático se pode aplicar a outras finalidades que não sejam a conversão dos membros do grupo.

(c)  Do que se disse até agora, deve ter ficado claro que não bastam preleções e propaganda para efetuar a mudança necessária.  Por essenciais que sejam, só serão eficientes se combinadas com uma mudança nas relações de poder e liderança do grupo.  Para grupos maiores, isto significa necessidade de adestrar uma hierarquia de líderes que atinja todas as subpartes essenciais de grupo.  Evidentemente, o próprio Hitler observou com todo o cuidado esse procedimento.  Embora diferente sob muitos aspectos, a inversão democrática deste processo terá de ser assim completa e basear-se solidamente na organização do grupo.

(d)  De modo geral, o mesmo princípio se aplica tanto ao treinamento de líderes democráticos quanto dos outros membros do grupo.  Os líderes democráticos não podem ser adestrados autocraticamente; por outro lado, é da maior importância que o preparador de líderes democráticos estabeleça e conserve sua posição de liderança.  Além disso, é muito importante que as pessoas que deverão ser mudadas de outra atmosfera para a democracia estejam insatisfeitas com a situação precedente e sintam necessidade de uma mudança.  Existem indicações de que é mais fácil atrair um líder autocrático insatisfeito para as técnicas democráticas do que mudar um líder do tipo laissez faire ou um líder semidemocrático satisfeito.  Isto pode contrariar a idéia popular de que uma mudança se realiza mais facilmente quanto maior for a semelhança entre a situação inicial e a final.  Todavia, a partir da teoria geral de mudança cultura, é compreensível que, após pequenas mudanças, a tendência a voltar ao nível anterior de equilíbrio seja maior do que após grandes mudanças.

O NÚCLEO DO PROBLEMA ALEMÃO

Ao que parece, pode-se deduzir então que a exigência fundamental para colocar-se a cultura alemã no rumo da democracia é uma mudança do papel dos líderes e dos liderados.

Tem-se observado com freqüência que os cidadãos alemães nunca souberam como criticar os chefes.  Na cultura alemã, "lealdade" se identifica tipicamente como "obediência".  Os alemães não compreendem outra alternativa para a organização eficiente de grupo baseada na obediência que não seja uma atmosfera de laissez faire e a ineficiência baseada na liberdade individualista.  O regime hitlerista fez tudo para fortalecer
essa opinião e identificar a democracia à desordem decadente e ineficiente.  Depois da última guerra (a Primeira Guerra Mundial), os jornais liberais alemães discutiram o significado de liderança democrática e disciplina democrática, numa tentativa de educar o público, dissuadindo-o da alternativa de cega obediência ou falta de respeito e responsabilidade.  Utilizou a idéia inglesa de "oposição leal a Sua Majestade" para
mostrar as funções positivas e as responsabilidades que os partidos da oposição têm num sistema parlamentar.  Para o leitor alemão, esses artigos soaram estranhamente irreais e inacreditáveis.  Pareciam tão contrários ao conceito alemão de natureza humana quanto a idéia de fair play, conceito totalmente estranho à cultura alemã.

Está claro que tais artigos tiveram pouca influência sobre a ação política dos alemães; duvido que os resultados houvessem sido melhores se os artigos fossem multiplicados por cem.  Para compreender aquilo de que se fala, o indivíduo deve ter uma base de experiência – como um menino numa reunião de estudantes, nas inúmeras associações da vida diária; ele carece de ter alguma noção do que significa liderança democrática e responsabilidade democrática do liderado.  Nenhuma preleção pode substituir tais experiências diretas.

Unicamente através da experiência prática é que se pode aprender aquela peculiar combinação democrática de conduta que inclui responsabilidade para com o grupo, capacidade de reconhecer diferenças de opinião sem considerar a outra pessoa um criminoso, e disposição para aceitar crítica de maneira realista, ao mesmo tempo que, ao criticar, levar em conta os sentimentos dos outros. A tentativa de mudar um único elemento levará apenas a uma situação em que o peso dos demais elementos restabelecerá o padrão total anterior.

QUEM PODE SER MUDADO NA ALEMANHA?

Quais são os grupos de pessoas especificamente importantes para os aspectos positivos da reconstrução?

No que respeito às classes sociais, já discutimos a necessidade de acabar com o domínio da Gestapo e dos Junkers.  É difícil fazer qualquer afirmação definitiva sem conhecer minuciosamente a atual constelação social.  Como vimos, uma drástica mudança do contexto cultural tem maior possibilidade de permanência do que uma mudança reduzida (embora, naturalmente, exista o fenômeno de o pêndulo receber um impulso excessivo).  Seria assaz lamentável que se tentasse colocar no poder aquelas camadas da população alemã que temem todo ambiente democrático drástico, e cuja única aspiração é voltar à atmosfera pré-nazista.  Uma situação dessas – por exemplo, o estabelecimento dos Habsburgos na Áustria – não seria estável; significaria ou volta a um Fascismo sob forma modificado - e isso é mais provável – ou conduziria a um levante revolucionário autêntico.

Mais que habitualmente, será preciso levar em conta os níveis de idade.  Quanto às mudanças, conviria distinguir três níveis: (a)  as pessoas com mais de quarenta anos, que na vida adulta tiveram outras experiências além do Nazismo; (b)  as pessoas entre vinte e trinta anos, cujos anos de formação foram dominados pelo Fascismo e que estão totalmente catequizadas; e (c)  as crianças.  Para cada grupo, o problema é um pouco diferente.  Discutiremos rapidamente o primeiro e o segundo casos, porque determinarão a atmosfera em que as crianças serão aculturadas.

(1)  Entre as pessoas com mais de quarenta anos, existem muitas com fortes convicções liberais.  Embora quase todos os líderes esquerdistas devam ter sido mortos, existe, sem dúvida, um número bastante grande de pessoas que estão dispostas a e ansiosas por estabelecer uma nova Alemanha "livre".  É de esperar que muitos tenham aprendido com os erros após 1918 e tentem sair-se melhor desta vez.  Do ponto de vista cultural, o que tais pessoas provavelmente necessitam mais é de melhor compreensão de como funciona uma democracia eficiente.  Aquilo que atualmente compreendem por democracia ou liberdade falta a liderança e disciplina de uma democracia eficiente.

(2)  Alguns observadores consideram o grupo dos de vinte anos, que não tem outro passado cultural além do fascismo para que voltar-se, e que possui hábitos culturais bem estabelecidos, como uma "geração perdida".  É bem possível que de fato se torne tal, que se recolha à clandestinidade e prepare a próxima guerra mundial; pois esse parece ser o único ideal pelo qual pode lutar uma geração em que a cultura nazista permanece, abalada mas não modificada.

Não estou convencido, contudo, de que seja esta a única possibilidade.  Muitos dos membros desse grupo devem estar agora interiormente desesperados.  Sabem que existe algo de errado com o Nazismo. Portanto, não seria de surpreender que tal grupo estivesse psicologicamente num estado de espírito não muito diferente da situação psicológica dos líderes autocráticos dos experimentos – os que, em curto prazo, foram "convertidos", readestrados. Não parece de modo algum impossível que um ataque frontal ao problema de transformar um grupo escolhido de jovens líderes nazistas, em todos os campos de atividade, tenha maior êxito no levar a cabo uma radical mudança de autocracia em democracia, na Alemanha, que a tentativa de remodelar a geração mais velha, cujo ideal se inclina para o laissez faire.  Esses jovens, que conhecem os problemas de liderança e que sentem profunda necessidade de mudança, prometeriam – se pudessem ser transformados – uma mudança mais profunda e estável de atmosfera do que os grupos que lutam por uma volta do passado ou por ligeiras transformações.  Naturalmente, não existe nenhuma esperança de conversão dos jovens sem um ideal positivo forte e novo.

MEIOS DE MUDAR A CULTURA ALEMÃNA

A mera propaganda, e particularmente propaganda do exterior, não mudará a cultura alemã.  Para que se realize uma mudança permanente e suficientemente profunda, o indivíduo terá de ser considerado na sua condição de membro de grupos.  É como membro de um grupo que o indivíduo é mais influenciável.  Ao mesmo tempo, tal abordagem de grupo pode influenciar melhor a grandes massas, de maneira relativamente profunda, que a abordagem individual ou a abordagem da massa através da propaganda.

É natural que se pense no sistema escolar – da escola maternal à universidade – como uma organização por via da qual seja possível mudar a cultura de uma nação.  Todavia, é preciso ter consciência de suas limitações.  Por exemplo, a idéia de utilizar cerca de 100 000 professores estrangeiros ou antigos refugiados parece ter sido abandonada, pois não levaria a mais que a uma forte reação negativa.  Sugeriu-se também que os Aliados se limitassem a garantir certas condições mínimas com referência aos livros didáticos; naturalmente, isso não contribuiria muito para mudar a cultura alemã.

Acho que não se deve subestimar nem exagerar a importância do sistema educacional.  Ele é decerto muito importante para um planejamento de grande amplitude.  Contudo, a atmosfera em educação, é apenas um espelho e uma expressão da cultura do país; muda a cada mudança de sua atmosfera social geral – como a história da educação alemã entre 1918 e 1933 o mostra de forma surpreendente.  Portanto, inicialmente, a
educação das crianças é menos importante que uma mudança de liderança.

A mudança da cultura exige a mudança das formas de liderança, em todos os meios sociais.  De início, particularmente importante é a liderança nas áreas sociais fundamentais do ponto de vista do poder.  Os problemas de ideologia e de poder estão intimamente ligados.  É, portanto, fundamental a transferência do poder político para outras camadas da população e a mudança das técnicas de liderança nos campos da política, do direito, da aplicação da lei e da economia.  Somente como parte dessa mudança política é que pode ocorrer e sobreviver uma mudança cultural no sentido da democracia.

Em minha opinião, não se pode esperar muito de uma troca de líderes potenciais entre países, embora um empreendimento que tal seja louvável.  Existe um limite definido por aquilo que uma pessoa pode aprender no contexto irrealista da condição de hóspede, fora da atmosfera específica em que terá de trabalhar.  Seria muito mais promissor um treinamento "no trabalho".  A reconstrução do após-guerra deve proporcionar amplas possibilidades de colaboração entre alemães e não-alemães, oportunidades que bem poderiam ser utilizadas para o treinamento ou retreinamento de jovens líderes alemães.  Esse treinamento não precisa trazer o estigma de "educação", porque existe um trabalho a ser realizado, um trabalho de cooperação no interesse da Alemanha.  Poder-se-ia demonstrar e promover ali a experiência direta de que "a democracia funciona melhor".  Se fosse orientado estrategicamente, esse treinamento "no trabalho", de líderes e preparadores de líderes, poderia muito bem atingir todos os aspectos de liderança de comunidade.  Poderia contribuir para por em movimento um processo de auto-reeducação.

As idéias aqui discutidas parecem indicar um processo que oferece pelo menos, alguma esperança realista de êxito.  Se se pode ou não realizar uma tentativa nessa direção, e qual o êxito que terá, são coisas que dependem da situação mundial.  Moisés conduziu o povo de Israel através do deserto, durante quarenta anos, até que pudesse morrer a geração que vivera como escrava, e os demais aprendessem a viver como povo livre.  Talvez não existam ainda métodos mais rápidos ou melhores para a reeducação cultural permanente de uma nação. 


EXIT  / SALIDA
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xi 2013

vi 1999