Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

OS PROCESSOS EDUCACIONAIS

Kurt Lewin

Os processos educacionais, mesmo numa pequena unidade educacional como a família, dependem muito do espírito do corpo social mais amplo em que as pessoas vivem. Toda mudança na estrutura política, econômica ou social deste grupo mais amplo, como a nação, tem uma profunda influência não só na organização da educação, como em todo o seu espírito e técnica. 

Segundo parece, é mais fácil para a sociedade mudar a educação do que a educação mudar a sociedade. 

Toda mudança de posição social da pessoa, como ser promovida de uma série para a seguinte, ou tornar-se amiga de um grupo de crianças, ou mudança nas posses de sua família, significa que determinadas coisas, pessoas ou atividades tornam-se ou deixam de estar disponíveis. 

O espaço de movimento livre de uma pessoa ou de um grupo social pode ser representado como uma região topológica, rodeada de outras regiões que não são acessíveis. A acessibilidade das regiões é obstada sobretudo por dois fatores. Um é a falta de capacidade, por exemplo, falta de perícia ou inteligência. O outro é a proibição social ou qualquer espécie de interdição que funcione como uma "barreira" dinâmica entre a pessoa e seu objetivo. A criança pode ser capaz de colher uma maçã, mas a mãe pode ter-lho proibido. 

Na Alemanha, o adulto tende a manter a criança em estado de submissão, enquanto o norte-americano deseja o mais depressa possível, colocar a criança em pé de igualdade. 

A luta do Estado totalitário contra a razão e a discussão intelectual, consideradas como "liberalismo", é muito lógica, pois o raciocínio coloca em pé de igualdade a pessoa que o utiliza. Portanto, apresentar razões na educação, é um "processo democrático". 

Embora escassa, a pesquisa científica parece justificar algumas afirmações gerais: 

É uma falácia supor que as pessoas, quando deixadas entregues a si mesmas, sigam um padrão democrático em sua vida de grupo.  Tal suposição não seria válida sequer para as pessoas que vivem numa sociedade democrática.  Na democracia, como em qualquer cultura, o indivíduo obtém o padrão cultural por via de algum tipo de "aprendizagem".  Normalmente essa aprendizagem ocorre pelo fato de o indivíduo viver dentro da cultura em questão. 

Quanto à mudança de um padrão cultural para outro, os experimentos indicam que a autocracia pode ser "imposta a uma pessoa".  Isto significa que o indivíduo poderia "aprender" autocracia adaptando-se a uma situação que lhe fosse imposta de fora.  A democracia não pode ser imposta a uma pessoa; tem de ser aprendida por um processo de participação voluntária e responsável.  Passar da autocracia para a democracia é um processo que leva mais tempo que a mudança na direção oposta. 

A "aprendizagem" da democracia, no caso de uma mudança a partir de outro padrão, contém portanto uma espécie de paradoxo semelhante ao problema da liderança na democracia.  O líder democrático não impõe, como o autocrático, seus objetivos ao grupo: na democracia, a determinação do programa político é feita pelo grupo como um todo.  No entanto, o líder democrático deve "liderar". 

Os experimentos no treinamento de líderes democráticos, de contramestres numa fábrica, por exemplo, mostram nitidamente que não basta treinar em práticas democráticas os sublíderes que dirigem os pequenos grupos face a face.  Se o poder imediatamente superior, tal como a administração da fábrica, não compreende e não aplica práticas democráticas, ou ocorre uma revolução ou a influência da liderança democrática nos ramos inferiores se esvairá rapidamente.  Isto não é de surpreender, pois os padrões culturais são atmosferas sociais que não podem ser administradas gradualmente. 

Considerando o aspecto técnico da mudança, pode-se afirmar: 

Evidentemente é impossível mudar os padrões culturais de milhões de pessoas tratando-as individualmente.  Felizmente, os métodos chamados em geral "trabalhos de grupo" permitem atingir de imediato grupos inteiros de indivíduos e, ao mesmo tempo, parecem ser de fato mais eficientes que o tratamento individual, para provocar mudanças profundas. 

Parece ser possível atingir, com relativa rapidez, grandes massas, adestrando líderes democráticos e líderes de líderes, de maneira a construir uma pirâmide. 

Será essencial contar com uma organização que, em vez de criar ressentimento e hostilidade, estimule a cooperação. Se se conceber a tarefa de democratizar realisticamente, como um processo que tem de atingir em nível profundo a ação familiar e a vida cotidiana do grupo, parece quase impossível intentar essa mudança principalmente através das escolas 

ASPECTOS GERAIS DA MUDANÇA CULTURAL 

A cultura como equilíbrio. Uma cultura não é um quadro pintado; é um processo vivo, composto de inúmeras interações sociais. Como um rio, cuja forma e velocidade são determinadas pelo equilíbrio entre aquelas forças que tendem a fazer a água correr mais depressa, e a fricção que tende a fazer a água fluir mais devagar, o padrão cultural de um povo, numa época dada, é mantido por um equilíbrio de forças em
contraposição.  O estudo das culturas em menor escala indica que, por exemplo, o ritmo de produção ou outros aspectos da atmosfera de uma fábrica, por exemplo, têm de ser compreendido como um equilíbrio, ou mais precisamente, como um "equilíbrio em movimento".  Depois de estabelecido um determinado nível,certos processos reguladores começam a funcionar para manter a vida do grupo naquele nível.  Fala-se de "hábitos de trabalho", "costumes estabelecidos", a "maneira aceita de fazer as coisas". Ocasiões especiais podem ocasionar um aumento de produção momentâneo; um festival pode criar, durante um ou dois dias, uma atmosfera social diferente entre a administração e os operários, mas rapidamente desaparecerá o efeito da "injeção no braço" e a constelação básica de forças restabelecerá as antigas formas de vida diária. Portanto, o problema geral de mudar a atmosfera social de uma fábrica (..) pode ser formulado, com um pouco mais de precisão, da seguinte maneira: como é possível provocar uma situação que mude permanentemente o nível em que forças antagônicas encontre o seu equilíbrio virtualmente estacionário? 

Mudando a constelação de forças. Para efetuar qualquer mudança, cumpre perturbar o equilíbrio entre as forças que mantêm em determinado nível a auto-regulação social. 

Estabelecendo um novo padrão cultural.  É preciso estabelecer (ou liberar) as forças para o novo equilíbrio, enquanto se destroem as forças mantenedoras do antigo equilíbrio.  Não só é essencial criar a fluidez necessária para a mudança e realizar a mudança como é também imprescindível que sejam tomadas medidas para possibilitar a permanência da nova situação, através da auto-regulação no novo nível. 

OUTRAS CONSIDERAÇÕES 

A satisfação não basta. É ingênua a idéia de que "natureza humana" seja o mesmo que "cultura democrática"; que basta destruir as causas do desajustamento para criar um mundo democrático. Numa cultura agressiva e autocrática, a agressão e o comportamento autocráticos não podem ser considerados sintomas de desajustamento. Não podem ser fundamentalmente mudados pela mera satisfação das necessidades do
indivíduo. 

Alguns princípios gerais positivos. Em diversos campos, os estudos de vida de grupo sugerem alguns princípios gerais para a mudança da cultura do grupo. 

a mudança deve ser mais uma mudança da atmosfera de grupo que de itens isolados. Tecnicamente, significa que não se pode efetuar a mudança pela aprendizagem de estratagemas. A mudança tem de ser mais profunda que o nível verbal ou o nível das formalidades sociais ou legais. 

Pode-se demonstrar que o sistema de valores que orienta a ideologia de um grupo se liga dinamicamente a outros aspectos de poder, dentro da vida do grupo. Isto é verdade tanto psicológica quanto historicamente.  Portanto, toda mudança real da cultura de um grupo está interligada com a mudança da constelação de poder interior do grupo. 

A partir desta perspectiva, compreende-se facilmente porque uma mudança nos métodos de liderança é provavelmente a maneira mais rápida de efetuar uma mudança na atmosfera cultural de um grupo.  Pois a chave da ideologia e da organização da vida desse grupo é o status e o poder do líder ou do setor de liderança de um grupo. 

A mudança de autocracia em democracia. Os experimentos com grupos de treinamento de liderança sugerem as seguintes conclusões: 

A mudança da atmosfera de um grupo, da autocracia ou laissez faire para a democracia, através de um líder democrático, corresponde a um reeducação dos liderados para a "obediência democrática".  Se os membros do grupo não forem capazes e não estiverem prontos para assumir as responsabilidades que são essenciais para os liderados numa democracia, o líder democrático ficará inerte.  Portanto, mudar a atmosfera de um grupo de autocracia em democracia, através da liderança democrática, significa que os adeptos da autocracia devem mudar para uma aceitação autêntica do papel de adeptos da democracia. 

Os experimentos mostram que não é possível realizar tal mudança de papéis com uma política de "não intervenção".  A aplicação do princípio da "liberdade individualista" leva unicamente ao caos.  Às vezes, é preciso impor às pessoas o sentido das responsabilidades democráticas para com o grupo como um todo.  É verdade que as pessoas não podem ser preparadas para a democracia através de métodos autocráticos.
Todavia, também é verdade que, para poder mudar a atmosfera do grupo para a democracia, o líder democrático tem de estar no poder e utilizar seu poder para uma reeducação ativa. Quanto mais os membros do grupo se converterem à democracia e aprenderem a desempenhar os papéis da democracia como líderes ou liderados, tanto mais o poder do líder democrático se pode aplicar a outras finalidades que não sejam a conversão dos membros do grupo. 

Do que se disse até agora, deve ter ficado claro que não bastam preleções e propaganda para efetuar a mudança necessária. Por essenciais que sejam, só serão eficientes se combinadas com uma mudança nas relações de poder e liderança do grupo. Para grupos maiores, isto significa necessidade de adestrar uma hierarquia de líderes que atinja todas as subpartes essenciais do grupo. 

De modo geral, o mesmo princípio se aplica tanto ao treinamento de líderes democráticos quanto dos outros membros do grupo. Os líderes democráticos não podem ser adestrados autocraticamente; por outro lado, é da maior importância que o preparador de líderes democráticos estabeleça e conserve sua posição de liderança. Além disso, é muito importante que as pessoas que deverão ser mudadas de outra atmosfera para a democracia estejam insatisfeitas com a situação precedente e sintam necessidade de uma mudança.  Existem indicações de que é mais fácil atrair um líder autocrático insatisfeito para as técnicas democráticas do que mudar um líder do tipo laissez faire ou um líder semi- democrático satisfeito. Isto pode contrariar a idéia popular de que uma mudança se realiza mais facilmente quanto maior for a semelhança entre a situação inicial e a final. Todavia, a partir da teoria geral de mudança cultural, é compreensível que, após pequenas mudanças, a tendência a voltar ao nível anterior de equilíbrio seja maior do que após grandes mudanças. 
 


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