Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

Gestalt

Vera Felicidade de Almeida Campos

Esta entrevista foi publicada em Setembro de 1976, no Group and Organization Studies - The International Journal for
Group Facilitators, editado por John E. Jones e J. William Pfeiffer.

(agosto de 1996)
 

Psicologia é a ciência que estuda e explica o comportamento humano.  Existem quatro abordagens, escolas ou conceituações básicas para este estudo. 

A abordagem psicanalítica (Freud, M. Klein, H. Sullivan, Lacan, etc.) entende o comportamento humano como a resultante de um processo de motivação inconsciente; o comportamento é visto, basicamente, como uma expressão projetiva do Ego, Id e Superego. Para os behavioristas (Watson, C. Hull, Skinner) o comportamento é resultante do condicionamento de reflexos inatos; para os funcionalistas (Piaget, W. James, Dilthey) o comportamento é sinônimo de adaptação, é a expressão da interação entre organismo e meio. Os gestaltistas clássicos, a gestalt psychology (Koffka, Koehler, Wertheimer) entendem o comportamento como processo perceptivo. 

A corrente psicanalista, desde a sua fundação (Freud), preocupou-se com os aspectos terapêuticos, com o tratamento das neuroses, das fobias; os behavioristas e os funcionalistas construíram uma teoria para explicar o comportamento humano, tanto quanto técnicas para modificá-lo, terapeutizá-lo, via social, via educacional.

Os gestaltistas explicaram o comportamento humano como sendo a resultante de processos perceptivos (*isomorfismo, princípio da contemporaneidade, meio geográfico/comportamental, *lei de figura e fundo, *conceito de gestalt, *insight, *totalidade). A preocupação dos gestaltistas era perceber, configurar a dimensão humana; não podiam terapeutizar o que ainda não era globalmente percebido. A tarefa principal consistia em erradicar a visão elementarista e organicista reinante na conceituação psicológica. Não foi criada uma psicoterapia gestaltista. 

Nos anos 60, surge F. Perls como criador da gestalt therapy. Ele falava que o todo não é a soma das partes (conceito da gestalt psychology) mas, preso à idéia, à crença na existência do inconsciente não conseguia admitir o conhecimento como um dado relacional, perceptivo, continuava achando que o conhecimento era o resultado de um processo interno, subjetivo. Ele não entendia o comportamento como processo perceptivo, entendia comportamento como expressão das motivações inconscientes. Este dualismo conceitual o impediu de perceber o ser-no-mundo, esta gestalt; pensando ainda como Freud, em ser versus mundo, exilou-se de qualquer contexto gestáltico, onde a unidade é um conceito fundamental. Lutando por "perca sua mente, ganhe seus sentidos" escreveu seu manifesto dualista. 

Tendo me formado em psicologia em 1968, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, comecei a trabalhar em psicoterapia criando a psicoterapia gestaltista. 

Em 1972, ao escrever Psicoterapia Gestaltista - Conceituações, dizia: 

"Este livro resulta de uma visão global unitária do fenômeno humano. Neste sentido ele se insere e se fundamenta no gestaltismo como teoria a respeito do comportamento humano, na fenomenologia e no materialismo dialético (que não deve ser confundido com o marxismo, como ideologia), enquanto abordagem metodológica. Esta visão global e unitária ultrapassa os seus constituintes fundamentantes - o gestaltismo, a fenomenologia, o materialismo dialético - à medida que os sincroniza em suas unicidades mediadoras totalizantes. 

"Atingimos essa sincronização partindo de uma atitude fenomenológica - conhecer o fenômeno, no caso o homem, sem a priori, através de sua evidência, pela apreensão de sua essência. Este ponto de partida nos explicitou, revelou um todo - o homem-no-mundo. A percepção disto nos remeteu a questionamentos de como se percebe, do que é percebido ou não, enfim, das leis da percepção, de seu significado e organização, intrínsecos ao processo do estar-no-mundo, contextuado no tempo e no espaço, fundamentamo-nos na teoria gestaltista acerca do comportamento humano e no materialismo dialético, desde que ao surgir o homem, o todo, uma figura, insinuou-se o seu contexto, fundo, o mundo. Por closura - um dos aspectos que caracteriza a organização perceptiva - percebemos a dimensão tempo, o espaço, o situante, a realidade, a matéria, o movimento, continuidade que caracteriza os processos cósmicos, existenciais. Deu-se a sincronização, já que não unilateralizamos a percepção do fenômeno processual a suas mediações, configurações ou essências, mas sim apreendemos sua mediação configurativa essencial; daí o fato de, neste livro, ser estudado o homem como um todo, questionando e respondendo sobre sua gênese, seus movimentos de constituinte e constituído. Este aspecto adquire importância à medida que, nas posições pragmáticas, dualistas, estruturalistas, marxistas, religiosas, sociológicas, antropológicas, físicas, etc., não é feito um questionamento sobre o que é o homem, embora dele se fale e se apresentem soluções para a sua problemática, principalmente nas diversas visões terapêuticas unilateralmente fundamentadas, onde se procuram e justificam tais soluções sem os dados do problema. Tal absurdo só ocorre porque é feito através de preconceituações, preconceitos, e nunca de conceituações. Neste livro procura-se conceituar o homem em seu contexto-temporalidade vivencial - levando em conta as estruturações e desestruturações daí decorrentes, salientando aspectos dogmáticos impeditivos destas realizações e apreensões." [pags. 15 / 16] 


Em 1993, ao escrever Terra e Ouro são Iguais - Percepção em Psicoterapia Gestaltista, dizia: 

"Ser psicoterapeuta é uma forma de ser no mundo com o outro. Não acredito que exista uma função psicoterápica, não vejo os processos relacionais em função de resultados, embora saiba que a profissão que exerço tem uma estrutura sócio-econômica bem delineada, funcionalmente especificada. Para mim, o que caracteriza o psicoterapeuta é a maneira como ele percebe, o que ele expressa - fala e comunica - como ele se estrutura, quais seus posicionamentos. 

Sempre tive um enfoque teórico, conceitual, por achar que só a partir daí posso perceber globalmente o outro que está comigo enquanto "cliente".  É esse enfoque teórico que me permite perceber o outro não como meu semelhante, pregnantemente, mas como uma queixa, uma dificuldade, uma mágoa, uma incapacidade, uma possibilidade não realizada, contingenciada, limitada por necessidades, um posicionado diante de mim. 

Minha vivência psicoterápica tem sido um constante questionamento no sentido de não cegar a minha ferramenta de trabalho, eternizando um posicionamento teórico. Quando criei os conceitos responsáveis pela estruturação da psicoterapia gestaltista [1], além de achar que a neurose era fundamentalmente não aceitação, conceituava percepção como conhecer pelos sentidos, seguindo a fundamentação gestaltista, antidualista e não apoiada na hipótese do inconsciente. Nesse contexto, eu acreditava que, através da atitude de aceitação, realizaria a antítese necessária à mudança. Em 1978, em meu livro Mudança e psicoterapia gestaltista, procurava entender e explicar por que isso ocorria: "... na psicoterapia pode haver mudança como ajuste ou como transformação; (...) a psicoterapia pode ser um posicionamento, (...) a vontade do cliente de mudar, de fazer psicoterapia, é, às vezes, a procura de um local para esconder, guardar, criar ou acalentar seus problemas. O psicoterapeuta só tem sentido de existir como propiciador de antíteses, de mudanças; caso ele se posicione, estabilize-se, defina-se como portador de verdades, teorizador de realidades, e representante/defensor de ordens constituídas, sejam quais forem, mesmo as mais revolucionárias, ele se nega como psicoterapeuta, virando autoridade, determinante de melhor bem-estar, ajuste, nunca de transformação, sincronização existencial"[2]. 

Mais tarde percebi que conhecer pelos sentidos, percepção, era relação. Essa globalização de processos me fez enfatizar o questionamento como alavanca propiciadora de mudança, pois neurose basicamente era distorção perceptiva, daí o questionamento, a denúncia possibilitarem outras percepções responsáveis por mudanças.  Mudando a percepção, muda-se o comportamento, era o conceito dominante [3]. 

Hoje, 24 anos depois do início de meu trabalho de conceituações em psicoterapia gestaltista, sei que neurose é não aceitação e distorção perceptiva, que perceber é conhecer pelos sentidos, que tal relação é a percepção. Mas percebo também que percepção é vivência, que neurose é posicionamento. Daí minha atitude psicoterápica de antítese basicamente se caracterizar pela quebra de posicionamentos - é o que expresso neste livro, quando abordo as clássicas dualidades configuravas do humano, mostrando que são posições unilateralizantes, parcializantes da
apreensão do humano: sujeito-objeto, quantidade-qualidade, por exemplo. 

Como psicoterapeuta, apesar de meu posicionamento teórico, sinto-me contemplativa quando me fusiono com o problema do outro a fim de globalizá-lo. Só encontramos a solução se nos dedicarmos ao problema, se nele mergulharmos. Buscar soluções fora do contexto de estruturação do problema é jamais encontrá-las. Esse tipo de solução é o jeitinho adaptador, via de regra conseguido através de interpretações e controle de comportamento.  O psicoterapeuta sequer pode querer que o indivíduo melhore, o que ele quer é fazer com que o indivíduo perceba por que está assim: medroso, confuso, sem se aceitar, dividido, neurótico enfim.

Muitos pensamentos meus a respeito do humano estão apenas conceitualmente formalizados, sem desenvolvimentos explicativos [4]; eles me servem de respaldo.  São aforismos, ou sutras [5] como diriam os indianos, ou ainda, resumos, unidades de percepção que abaixo transcrevo:

Relacionamento e Posicionamento

1. A essência humana é relacional 

2. Relacionamentos estruturam posicionamentos 

3. Posições configuram limites 

4. Os limites criam descontinuidades 

5. A descontinuidade motiva para buscas 

6. As buscas criam planos para os posicionamentos 

7. A manutenção do posicionamento engendra atitude de avaliação 

8. As avaliações são neutralizadas pela espontaneidade 

9. A participação impede a espontaneidade na medida em que cria o ajuste, determina articulações, endereçamentos 

10. Estar com o outro, ser com o outro é diferente de integrar-se fundir-se com o outro 

11. Quando a existência pressupõe uma pré-existência, ela é um limite relacional criador de obstáculos ao movimento 

12. O movimento é uma relação 

13. Contextos relacionais são referenciais posicionantes e determinadores de comportamento
 

Percepção

1. Em termos psicológicos seria necessário integrar a percepção a tal ponto que não percebêssemos que percebíamos 

2. Consciência como absorção da vivência é dualismo 

3. Vivência é integração do presente. A não vivência, a não integração do presente, é a pontualização 

4. A duplicação do ser em eu mesmo é fragmentadora - questão de imagem fabricada 

5. A vivência total é presentificada (integração, contemplação, êxtase) 

6. A percepção de si mesmo é despersonalizadora pela divisão que enseja 

7. Situar-se quebra a dinâmica e desumaniza, coisifica 

8. As imagens, papéis e representações constituem a aparência 

9. O que aparece é diferente do que é, embora seja - o que aparece é diferente do que é, porque é um outro - expressão e estruturação 

10. Entre a essência e a aparência existe um abismo (vazio). Esta evidência criou visualizações arbitrárias de interno e externo, de oculto e expresso, de objetivo e subjetivo 

11. A polaridade é a manifestação da unidade 

12. Pensar no humano como subjetividade (alma, espírito, psique, consciência, inconsciente organismo) e objetividade (comportamento, motivação, linguagem) é obscurecedor do humano 

13. A unidade (unicidade) humana é a sua essência (relacional)
 

Essências Relacionais

1. A movimentação do eixo submetido a forças dinamizadoras provoca unilateralizações ou globalizações. 

2. Nos relacionamentos são estruturados os níveis de sobrevivência e de existência. 

3. A depender da simultaneidade do movimento configura-se ora o nível de sobrevivência, ora o nível de existência. 

4. Havendo interrupções privilegia-se uma polarização responsável pelo sujeito ou pelo objeto. 

5. A quebra do eixo cria o sujeito e/ou o objeto, pontualizado. 

6. A quebra do eixo é feita pelos aprisionamentos, os captores da essência humana. Captores, posicionantes, podem ser entendidos como organismo, sociedade, cultura, mais sinteticamente, o outro. 

7. O outro aliena ao gerar participação - é o outro como limite. 

8. A recuperação do eixo é feita através da ultrapassagem do outro, transcendendo-o. O outro já não é um limite. 

9. A estruturação de autonomia é a quebra das pontes nos abismos, é a transformação do vazio cercado - é a retirada das cercas. 

10. A possibilidade de relação estrutura o sujeito e o objeto. É como se o eixo ao movimentar-se, por atrito, estruturasse os pólos. 

11. O outro no espelho sou eu. 

12. A intervenção de outro contexto muda a percepção. 

13. O próximo é o distante, pois há sempre uma distância quando se configura a proximidade.
 

Totalidade

1. Não existe o si-mesmo - partes não existem. 

2. Este outro eu, por mim criado, é um acessório relacional construído por deslocamentos de não aceitação. 

3. Parando de deslizar, saltando e pulando, preciso de andaimes e cordas para aterrissar. 

4. As chamadas reflexões do Ser são reproduções caricaturadas desses movimentos. 

5. O andar em círculo, as repetições estruturam desequilíbrios. 

6. A quebra de contextos estruturantes orienta para a busca do si-mesmo. Quem sou eu? O que quero? 

7. O desespero é a necessidade de resolver - nada espero, mas quero. 

8. A impossibilidade é a formalização definidora de posicionamento, tanto quanto a possibilidade o é. 

9. Decidir é avaliar; continuar é dedicar-se. 

10. Só existe continuidade (dedicação) no deslizamento, na quebra das formas, dos limites - já não sei quem sou eu, quem é o outro, apenas me percebo com o outro. [pags. 124 a 132] 
 
 

Ao longo destes 28 anos continuo sendo psicoterapeuta e desenvolvendo conceitos e estudos sobre psicoterapia gestaltista, expostos nos livros: 

Psicoterapia gestaltista - Conceituações, 1972 

Mudança e psicoterapia gestaltista, 1977 

Individualidade, questionamento e psicoterapia gestaltista, 1983

Relacionamento - Trajetória do humano, 1988 

Terra e ouro são iguais - Percepção em psicoterapia gestaltista, 1993 
 

NOTAS:

[1] - Em meu livro Psicoterapia Gestaltista - Conceituações (1973). 

[2] - Mudança e Psicoterapia Gestaltista, pag. 11. 

[3] - Em meu terceiro livro, Individualidade, Questionamento e Psicoterapia Gestaltista (1983), e em meu quarto livro, Relacionamento - Trajetória do Humano (1988), esses conceitos estão descritos. Quando, em Relacionamento - Trajetória do Humano, digo que "todo relacionamento gera posicionamento geradores de novos relacionamentos que por sua vez geram novos posicionamentos - indefinidamente," já se encontram as sementes do atual trabalho. 

[4] - Neste livro desenvolvo a maior parte deles. 

[5] - 'Sutra', do sânscrito sutra : linha, fio. Os sutras são os fios condutores; os pensamentos, as percepções são neles enfileiradas como contas de um colar.

EXIT  / SALIDA

ii 2016
ix 2013

vi 1999