Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

Gestalt e Sistemas

Therese Telenge
 

Por que introduzir a noção de sistema?  "Gestalt" - configuração - já não é um conceito sistêmico?  Não se refere justamente à qualidade estruturada de um "todo cujas partes são de tal forma inter-relacionadas que a modificação de uma delas modifica o todo?

De novo é preciso situar a questão em perspectiva histórica. A psicologia da Gestalt surgiu e se desenvolveu a partir da segunda década do nosso século no contexto de grandes reviravoltas nas ciências e na filosofia.  Privilegiando como foco das suas investigações fenômenos de inter-relação e ordenação e organização, ela se contrapõe ao associacionismo que marcava a psicologia da época. Como tal, ela representa um marco de grande importância na história da psicologia.

Ao repensar funções psíquicas como percepção, memória, aprendizagem, a psicologia da Gestalt forneceu subsídios para teorias sistêmicas de personalidade e de grupos sociais. Ao mesmo tempo, a noção de Gestalt enquanto um "todo" dinamicamente se diferenciando em figura e fundo e seguindo certas leis e seguindo certas direções, não se mostra suficiente para abranger a complexidade dos eventos motivacionais
e comportamentais de indivíduos e grupos sociais. No fim do seu livro Princípios da Psicologia da Gestalt, Koffka constata: "A teoria da Gestalt tem sido muito coerente em seu desenvolvimento. Ela estudou as Ieis fundamentais da psicologia, primeiro sob as mais simples condições, em problemas bastante elementares de percepção; depois incluiu conjuntos cada vez mais complexos de condições, dedicando-se ao estudo da
memória, do pensamento e da ação. Começou a abordar as condições em que a própria personalidade entra na investigação.  Mas como se trata de um mero primórdio, parece-nos mais sensato dar tempo ao tempo." 

Não só a psicologia da Gestalt, mas também a teoria do campo e as teorias organísmicas representam os primeiros modelos sistêmicos em psicologia. Preocupando-se-se com a dinâmica inter-relacional de conjuntos complexos, sua organização, regulação e direção, estas teorias representam enfoque novo, distinto dos modelos clássicos da relação causa-efeito e da transformação de energia.  Lei de pregnância ou boa
forma, equalização, homeostase são alguns dos termos usados para referir-se a processos tendentes a um equilíbrio dinâmico. Trata-se de processos identificáveis sobretudo em sistemas vivos, que dizem respeito não só à manutenção de estados relativamente constantes frente à variações internas e externas, mas também à tendência em direção à diferenciação e organização cada vez maior dos seus componentes.

No entanto, a dificuldade de se desvencilhar de conceitos pertencentes a outras áreas de conhecimento levou a transposições conceituais que, às vezes, obscurecem mais do que esclarecem. Isto vale tanto para conceitos da física como equilíbrio, força, campo, vetor, quanto para noções como crescimento e homeostase da biologia e da fisiologia.

Um novo desenvolvimento da perspectiva sistêmica deu na década de 40 quando o biólogo Ludwig von Bertalanffy explicitou o que denominou de "Teoria Geral Sistemas" como abordagem interdisciplinar de fatos multivariáveis e caracterizáveis precisamente pelo fato e pela forma de sua organização, fatos, portanto, que não são abordáveis pelo método de isolar e manipular variáveis. É notável que na lingüística, na
antropologia, na psicanálise, o estruturalismo tornou-se na mesma época a corrente dominante a se preocupar com as inter-relações dos elementos pertecentes a um mesmo conjunto.

A proposta de von Bertalanffy é construir modelos e descobrir os princípios gerais aplicáveis a sistemas complexos de qualquer natureza - biológicos, ecológicos, psíquicos, sociais, econômicos, culturais - que não sejam vagas analogias e tampouco transposições de conceitos e modelos uma área de conhecimento para outra.

Escreve von Bertalanffy:

"Pode-se chamar de 'homeostase psicológica' o escalar montanhas, compor sonatas ou poemas líricos - como tem sido feito -, porém com o risco de que este conceito fisiologicamente bem definido, perca todo o seu sentido. Além do mais, se o principio de manutenção homeostática for tomado como regra de ouro do comportamento humano, o fim último será o chamado indivíduo bem ajustado, isto é, um robô bem lubrificado que se mantém na mais desejável homeostase do ponto de vista biológico, psicológico e social." Com esta observação, von Bertalanffy mostra as possíveis conseqüências ideológicas quando um modelo como o homeostático for indevidamente estendido para as ciências humanas, onde pode vir a representar um modelo basicamente reativo e "conservador".
A Gestalt-terapia, ligada aos modelos sistêmicos iniciais, é herdeira da tendências de transpor modelos e conceitos. Ao se opor a uma concepção mecanicista do homem e a uma psicologia associacionista, Perls apoiou-se na psicoIogia da Gestalt e, principalmente, na elaboração de uma teoria organísmica de Goldstein.  E, necessariamente, sua limitação coincide com a própria limitação dos conceitos usados.

Quando eIe descreve o comportamento humano em termos de um processo contínuo no qual "necessidades" surgem como "figuras" a partir de um "fundo" que é a pessoa como um todo, com sua história e experiência, situado no seu espaço e tempo - no "seu mundo" -, ele usa descrição do processo de percepção dos gestaltistas para processo motivacional. Várias perguntas se impõem. Primeiro, se a noção de Gestalt
diferenciando-se em figura e fundo é uma metáfora descritiva válida para descrever a complexidade dos acontecimentos da motivação e ação humanas. Segundo, a que exatamente se refere o termo "necessidade".  Terceiro, se o modelo chega a elucidar o que Perls deseja, que é precisamente a interação de fatores físicos, biológicos, psíquicos e sócio-culturais.

Quanto à noção de Gestalt, uma das suas insuficiências, quando estendida para outros campos que não a percepção, é a tendência de ver o "todo" - quaIquer todo que tiver sob consideração como se fosse algo completo em si, e de se concentrar no que acontece dentro dele. No entanto cada "todo" tem uma posição e inserção, num contexto mais amplo com o qual existe uma relação recíproca. Assim, cada "todo" tem duas faces: para dentro é composto de partes inter-relacionadas, para fora é uma parte pertencente a um outro "todo" que, por sua vez, também tem duas faces.

A "pessoa como um todo" entendido como o fundo de onde surgem as figuras motivacionais é um "todo" tão composto e complexo que falar em "fundo" não esclarecer muito. Aqui se insere também a crítica teórica ao modelo grupal em Gestalt-terapia tal qual Perls o descreveu. No processo de formações figura-fundo, ele entende como "figura" o encontro diádico terapeuta-cliente, surgindo de um "fundo" que é o grupo ou
processo grupal, sem que este seja visado na complexidade de suas articulações internas e na sua relação recíproca com o contexto social mais amplo.

Focalizando não só as relações entre partes formadoras de um "todo", mas também os entrecruzamentos de diversos sistemas e a sua articulação, a teoria de sistemas amplia e enriquece o modelo sistêmico dos gestaltistas.

Percebe-se a dificuldade com a qual luta Perls quando, em contrário a sua própria intenção, não escapa a justaposições. Assim, por exemplo, quando fala em necessidades, freqüentemente ele estende explicitamente a noção de necessidade para "além" da esfera da sobrevivência do organismo biológico para incluir "também" necessidades psicológicas, sem ultrapassar, de verdade, o modelo biológico usado.  Tanto na
psicanálise quanto na fenomenologia - suas fontes - as tentativas de elucidar as articulações entre as esferas do biológico, do psíquico e do social são mais elaboradas. No seu sentido preciso, uma necessidade, a nível vital, provoca um estado de tensão interna que pode ser aliviada por uma ação especifica, conduzindo ao objeto adequado capaz de satisfazer a necessidade e restabelecer o estado de equilíbrio do organismo.

Freud traça um caminho do biológico para o psíquico, interpondo entre necessidade e objeto de satisfação a noção de representação psíquica de satisfação. O que move o ser humano não é o binômio necessidade-satisfação, mas pulsão em direção à reaIização de um desejo. Em termos evolutivos a satisfação das necessidades vitais de um recém-nascido é também e de imediato colorida pela experiência de que esta satisfação é mediada por uma pessoa que cuida, fornecendo alimento, calor etc. Não só a sensação dolorosa da tensão e prazerosa do alívio, mas também a experiência, prazerosa ou não, decorrente da vinculação com a pessoa que cuida, ficam registradas como se fossem sinais que vão formando imagens.  O que a partir daí impulsiona o homem não é mais a necessidade enquanto tal (salvo situações extremas), mas a reativação das imagens, o desejo de reproduzir experiências sinalizadas como prazerosas e de evitar as que carregam sinais negativos. O desejo se origina e se calca em necessidades, mas enquanto desejo está desvinculado delas. E enquanto desejo também não tem objeto único ou determinado de satisfação.  Por outro lado, nenhum objeto real preenche totalmente o desejo. E precisamente o espaço desta falta, a níveI do desejo, é fundamental para a constituição do eu psíquico, do ser humano como sujeito e como transformador da natureza dada.

Em termos de articulação estrutural, o fenomenólogo Merleau-Ponty situa a ordem existenciaI humana como reestruturando e "re-significando" a ordem vitaI biológica. Não se pode entender a percepção e a ação do homem sobre seu mundo em termos da dialética vital do organismo e seu meio. Diz ele: "A relação de cada ordem com a ordem superior é a de parte e todo. Um homem normal não é um corpo portador de instintos autônomos, juntados a uma vida psicológica definida por certos processos característicos - prazer, dor, emoção, associação de idéias - e coroado por um espírito que desenvolveria seus atos próprios sobre esta infra-estrutura. O estabelecimento da ordem superior à medida que se realiza, suprime, como autônomas, as ordens inferiores e confere um novo significado aos seus elementos constitutivos."’

O que constitui a condição propriamente humana é poder ir além de manter estruturas e relacionar-se com estruturas dadas, é a capacidade de criar novas estruturas pelo fato de poder abstrair e encarar um mesmo objeto sob uma pluralidade de aspectos. O homem não é capaz apenas de usar esta vara para alcançar aquela banana. Ele conceptualiza aquilo que reconhece como galho de árvore como instrumento para qualquer uso virtual, inclusive o de fabricar outros instrumentos. Ele se orienta em relação ao ausente: ao imaginável, desejável, realizável. O seu espaço próprio é o espaço da temporalidade, da transformação e da criação.

O modelo organísmico da relação homem-mundo que subjaz à Gestalt-terapia não é satisfatório, do ponto de vista conceitual, para abranger as inter-relações das múltiplas dimensões sistêmicas que estão em jogo.  A Teoria de Sistemas cujos inícios se situam na década de 20, mas que não foi explicitada antes dos anos 40, abre novas possibilidades de se pensar sistemicamente com maior nível de abstração de sistemas naturais, quer físicos ou biológicos.

INCURSÕES NA TEORIA DE SISTEMAS

Como prolongamento do que Koffka chamou de "primórdios" do pensamento sistêmico, as pesquisas mais recentes podem ajudar a criar modelos e quadros de referências que acentuam não só as semelhanças, mas também as diferenças estruturais entre tipos de sistemas. Obviamente não se trata aqui de entrar fundo na teoria de sistemas, e sim, de explicitar alguns conceitos fundamentais. Muito do que segue pode parecer um desvio dispensável em relação à compreensão dos fenômenos grupais, uma vez que nem sempre é possível estabelecer uma ligação direta com a prática. No entanto, como quadro de referência geral para pensar eventos psíquicos e sociais, representa uma perspectiva extremamente fértil e, talvez, ainda pouco explorada na psicologia.

A definição mais ampla de sistema diz o seguinte: "Sistema é um conjunto de objetos que se caracteriza pela inter-relação entre estes objetos e seus atributos". Os componentes sistêmicos focalizados pela teoria de sistemas não são primariamente os "objetos" enquanto físicos ou materiais, mas sobretudo leis, regras, funções, processos, equações. O foco passa da substantividade das partes para os processos inter- relacionais entre elas, o que torna viável o estudo comparativo de sistemas de diferentes naturezas. 

O método de estudar sistemas é indagar sobre:

  • a sua estrutura, isto é, qual o seu contorno, quais as suas partes, como se inter-relacionam internamente e com o meio externo, ou seja, com outros sistemas;
  • o seu funcionamento, isto é, como se processa dentro de um sistema a transformação daquilo que recebe (input) naquilo que devolve ao meio (output);
  • a sua evolução, isto é, como se comporta o sistema frente a mudanças que sofre ao longo do tempo, quais seus dispositivos de correção, diferenciação, renovação; como ocorrem seu desgaste e sua desintegração enquanto sistema.
Novamente, é importante ter em mente que estrutura não deve ser entendida como substantiva. Ela é abstrata, impalpável, porém detectável através do continuo acontecer dos processos inter-relacionais dos quais é uma representação temporária. Um exemplo pode ser uma língua. Em si, ela é uma estrutura detectável na sua manifestação concreta que é a fala. No entanto, a língua, enquanto estrutura, regula as relações possíveis entre palavras - ela é uma presença ausente a toda a fala humana, e esta, no seu acontecer, vai modificando a língua.

É o conjunto de relações funcionais relativamente estáveis que faz com que um conjunto faça jus ao termo sistema. Um saco de batatas em si não é um sistema; um comércio de batatas, uma plantação de batatas são sistemas e até uma só batata. Básico é que haja função, isto é circulação de matéria, energia e informação que resulte em algum tipo de transformação.

Ao considerar a evolução de sistemas é preciso fazer uma distinção fundamental entre sistemas fechados e abertos.

O sistema fechado é aquele dentro do qual circula energia, mas que por si só não mantém trocas de energia ou matéria com o meio. O exemplo mais clássico e radical é o de um reação química que se passa dentro de um container totalmente vedado. Menos hermeticamente fechado é o motor de um carro que, para funcionar, precisa de combustível, mas que não é por si capaz de extraí-lo do meio. Uma vez abastecido e bem articuladas as partes, o carro tem certo grau de autonomia de funcionamento; porém, não havendo input de combustível, acabará o output de energia e o motor morre".

Para os sistemas fechados vale a segunda lei da termodinâmica da mecânica. Esta afirma que tal sistema tende para a entropia, isto é, evolui para um estado de equilíbrio estático que se caracteriza por perda de diferenciação entre partes, até chegar à indiferenciação total ou inércia. Além de não possuir dispositivos autônomos de troca com o meio, sistemas fechados tampouco dispõem de dispositivos internos de mudança
ou correção, eles não são auto-reguladores. O motor do carro depende do mecânico para regulagem e reparos.

Até há relativamente pouco tempo a segunda lei da termodinâmica era considerada válida para todos os sistemas. Foi em 1942 que um físico, Erwin Schrödinger, refutou a aplicabilidade universal desta Iei, ao distinguir entre sistemas cuja tendência é entrópica e outros que possuem dispositivos negentrópicos, ou seja, são capazes de se diferenciar e organizar em níveis cada vez mais complexos, de se auto-regular e
regenerar. São os sistemas abertos que podem ser inorgânicos, orgânicos, humanos, sociais, econômicos, etc.

Dizer que um sistema é aberto se refere em primeiro lugar às trocas que mantém autonomamente com o seu meio tanto de matéria e energia, quanto de sinais informativos. E, em segundo lugar, aos intercâmbios internos entre partes que resultam em mudança do próprio sistema no que diz respeito a seu funcionamento e à sua estrutura. É justamente esta possibilidade de mudança que garante a continuidade do sistema.

O jogo contínuo das relações entre partes e com o meio mediado por trocas de matéria, energia e informação, a inserção de um sistema "inferior" em um "superior", as relações hierárquicas complexas, a maior ou menor liberdade de mudança são especificos para cada tipo de sistemas e para cada sistema individual. No entanto, algumas características gerais são reconhecíveis em todos:

1) Os elementos, enquanto partes de um conjunto têm regras de funcionamento diferentes das que regem cada um desses elementos (que, por sua vez, também podem ser sistemas); 
2) a alteração em qualquer um dos sistemas-elementos provocará a alteração de todos os outros e do todo; 
3) o "valor" relativo de cada sistema-elemento não depende do que ele é por si mesmo, mas sobretudo da posição que ocupa no conjunto; 
4) as inter-relações entre partes em sistemas de natureza complexa não se fazem exclusiva ou mesmo primordialmente por transmissão de energia ou matéria, mas dependem sobretudo de fluxos de informação, sistemas de sinalização ou linguagens. Isto vale tanto para sistemas bioquímicos, orgânicos e ecológicos, quanto para psicossocioculturais, sendo que cada tipo de sistema tem seu código de sinais, sua
linguagem própria.  Esta mudança de enfoque do fluxo energético para o fluxo de informação é de importância central na diferenciação entre sistemas e para a compreensão do seu funcionamento. Sem falar nas imensas conseqüências para a constituição da informática como campo e objeto próprio de investigação e aplicação.

O PAPEL DA INFORMAÇÃO NA CONCEPÇÃO SISTÊMICA

Entre as trocas que ocorrem em sistemas abertos, o processamento de informações intra e inter-sistêmicas passou a ser o objeto específico da cibernética (do grego kubernetès = timoneiro), que colocou em evidência a importância do fluxo informativo como dispositivo de correção, regulação e mudança de um sistema.

lnformação, no sentido aqui empregado, não tem a conotação de notícia ou conhecimento, mas se refere ao levantamento e processamento daqueles dados que promovem em um sistema uma mudança em capacidade e qualidade de ação. Ela possibilita a modificação de normas e funções estruturais à medida que estas deixam de ser funcionais.

Organismos biológicos possuem seus códigos informativos (é incalculável, por exemplo, a importância da descoberta de um código genético). Porém, comparados com sistemas psicossociais, os últimos se distinguem pela liberdade infinitamente maior de suas partes se reagruparem efetivamente, determinarem novos padrões e regras de funcionamento. No nível humano e sócio-cultural, as possibilidades de manipulação e combinação de símbolos arbitrários são quase inesgotáveis e capacitam os sistemas para a auto-reflexão consciente. Os componentes de sistemas sócio-culturais são inter-relacionados quase inteiramente por comunicações e significados que, em grande parte, são criações do próprio sistema.

Quanto mais complexo um sistema, isto é, quanto maior o grau de variabilidade e liberdade que o caracteriza, tanto maior o grau de imprevisibilidade ou "incerteza" existente dentro dele. O armazenamento e o fluxo de informação são os dispositivos fundamentais para reduzir incertezas, ou seja, de conseguir um certo grau de controle e previsibilidade. Uma vez que o sistema, a partir da circulação e informações, seleciona entre alternativas possíveis, a informação é fundamental para a tomada de decisões que direcionam a ação.

A funcionalidade de um sistema - e em nosso contexto sempre pensamos especificamente em sistemas psicosocioculturais - depende do fluxo adequado de três tipos básicos de informação: 1) informação a respeito do mundo externo ao sistema, continuamente renovada (mapeamentos); 2) informação armazenada, acessível e passível de múltiplas recombinações dos dados (memória); 3) informação acerca do seu próprio funcionamento sob todos os aspectos possíveis (feedback).

A partir destas considerações, parece possível incluir o conceito de contato, como ele é usado em Gestalt-terapia, o acesso à informação das três modalidades mencionada quanto mais amplo e livre de distorções este acesso for tanto maior possibilidade terá uma pessoa de enxergar novas alternativas de ação e de modificar estruturas relacionais ultrapassadas.

A reorganização, provocada por novas "informações" e o conseqüente redirecionamento da energia para a ação resultam no "ajustamento criativo". Criatividade pressupõe discernimento diante do novo, para dele selecionar o que é funcional e pertinente, rejeitar o que é irrelevante e nocivo. Em outras palavras, trata-se de processos contínuos de decisão com base em informações.

lsto não quer dizer que estes processos se passam necessariamente a nível deliberativo.  Em geral, as atividades mais complexas, com maior grau de liberdade e flexibilidade, repousam, em níveis menos complexos e mais fixos de funcionamento. Escrever um texto implica em escolher um tema, esboçar um plano geral. As alternativas são numerosíssimas, o grau de "incerteza" chega a gerar ansiedade. A redação não só
oferece abertura para escolher estilo e vocabulário, mas também impõe restrições à medida que regras de gramática e sintaxe precisam ser obedecidas, embora exista a chamada "licença poética". A ortografia tem regras mais limitantes e o padrão muscular que rege a mão que escreve é quase totalmente automatizado.  Os processos fisiológicos que ocorrem durante o ato de escrever são controlados por regulações homeostáticas onde o espaço de interferência deliberativa é mais reduzido ainda.

Se desta gama de componentes que compõem o ato de escrever alguns são mais deliberativos e outros menos, qualitativamente todos podem ser caracterizados por maior ou menor espontaneidade, fluidez, ritmicidade.

Olhando de novo para a Gestalt-terapia, nota-se que Perls priviIegia estas qualidades em todos os níveis e as contrapõe à deliberação obsessiva, ao ritmo imposto, à disciplina rígida. Embora ele nunca tenha empregado o termo "informação" nos seus escritos, a seguinte passagem mostra claramente que a idéia está presente.  "Quando uso fantasia ou me concentro em um problema, eu invisto uma quantidade pequena da minha energia internamente disponíves para produzir uma quantidade maior de energia corporal ou externa, efetivamente aplicada (...) Atividade mental parece ser uma atividade da pessoa como um todo, executada em nível energético menor do que aquelas atividades que chamamos de físicas."

Pensar, concentrar-se, imaginar equivale a gerar informação capaz de orientar respostas a nível de ação.  E a idéia que Ihe é tão cara de que o homem, ao colocar-se em estado de disponibilidade ou de "indiferença criativa", segundo o termos empregados a Friedländer, pode abranger dimensões opostas de uma mesma questão, vislumbrando a relação dialética que as une, diz respeito precisamente à possibilidade de mudança de perspectiva que vai desvendar novas relações de significado e novas alternativas de ação.

FRONTElRAS SISTÊMICAS - UMA QUESTÃO DE PERSPECTIVA

Se o determinante de um sistema é a inter-relação dos componentes e seus atributos, é preciso saber onde termina um sistema e começa o meio no qual se insere. Uma definição genérica diz que "para um dado sistema, o meio consiste no conjunto de objetos cuja modificação afeta o sistema e, também, naqueles objetos cujos atributos são modificados pelo comportamento do sistema".

Esta definição deixa entrever que os mesmos elementos que pertencem a um sistema podem ser considerados como parte do meio, quando se enfoca outro sistema. Exemplifiquemos: minha casa, enquanto construção, representa um sistema habitacional composto dos mais variados e elementos, tais como materiais, espaços, funções, e se insere em sistemas-meio urbanísticos, administrativos, legais, estéticos, etc. Considerando-a como espaço de abrigo e encontro da minha família, a casa se torna meio, uma vez que o sistema enfocado é o grupo familiar sob o prisma das suas inter-relações de pessoas e papéis, de normas e regras de convivência, de fluxo de comunicação e poder de decisão etc. Uma modificação na casa afeta o sistema família e este imprime sua marca na casa a partir do seu funcionamento sistêmico.

Se um conjunto de objetos forma um sistema, dependendo das inter-relações sob consideração, podemos dizer que um sistema corresponde a uma perspectiva, um ângulo sob o qual uma parcela da realidade pode ser vista. É possível, portanto, escolher um ângulo, mudar de perspectiva, dependendo do problema sob estudo. Relações importantes e pertinentes podem ser incluídas, relações irrelevantes, excluídas. A decisão sobre quais relações são importantes e quais não o são, depende basicamente de quem aborda o problema.  Obviamente, não se trata de decisões arbitrárias. Como e onde delimitar talvez seja a questão mais espinhosa na abordagem sistêmica.

Lewin observa: "É particularmente necessário que qualquer um que se propuser a estudar fenômenos globais, se arme contra a tendência de querer tomar sob consideração "todos" os mais abrangentes possíveis. A verdadeira tarefa é a de investigar as propriedades estruturais de um "todo" em particular, averiguar as relações de "todos" subsidiários e determinar as fronteiras do sistema sob estudo.

Que "tudo" depende de "tudo" é tão verdadeiro em psicoIogia quanto em física."

Entendendo a estrutura sistêmica como uma estrutura de acontecimento transacionais, é preciso retomar a noção de fronteira como referente às ocorrências de trocas e transações. Embora a idéia de recorte e delimitação esteja presente, no sentido de indicar o que está incluído ou não, o que está "dentro" e "fora" de um determinado sistema, as fronteiras se modificam segundo o conjunto de inter-relações focalizado. Se os mesmos objetos podem constituir eIementos pertencentes a diferentes sistemas, dependendo do ponto de vista sob o qual são encarados, as fronteiras se delineiam de maneira nova quando ocorre a mudança de perspectiva.

Como conceito dinâmico, fronteiras, ou melhor, eventos fronteiriços, são aqueles em que as partes relacionadas se mantêm diferenciadas, em oposição a eventos que resultam em confluência, fusão, perda de diferenciação.

ESTABILIDADE E MUDANÇA

A dialética de mudança e estabilidade é o cerne da análise de sistemas. Em sistemas abertos, ações e interações formam o núcleo de um processo contínuo de mudança, isto é, de elaboração de normas e funções novas e destruição de antigas, à medida que estas são superadas, Esta perspectiva é fundamentalmente dinâmica e renovadora. A mudança está a serviço de um nível viável de estabilidade e continuidade, mas
estas não se confundem com um determinado modo de estrutura e funcionamento. Sistemas sociais se distinguem de máquinas e organismos biológicos pela maior liberdade de suas partes de se reagruparem efetivamente em novos padrões de funcionamento. Estamos longe da acepção corriqueira da palavra sistema como equivalente de rigidez e imobilismo.

A PERSPECTIVA SISTÊMICA NA PRÁTICA

Embora existam princípios gerais que se aplicam ao estudo de sistemas em geral, cada sistema em particular é único e irreproduzível na composição de suas partes. A manipulação experimental de variáveis isoladas ou estudos comparativos com base em estatística resultam improdutivos para detectar precisamente a constelação relacional única de um dado sistema.

Pensar sistemicamente é debruçar-se sobre a unicidade da composição de elementos, detectar a estrutura dos eventos. Tomando como exemplo um grupo enquanto sistema-sob-consideração, focalizam-se as relações entre pessoas, papéis, regras, normas de comportamento, estilo de comunicação, inserção no contexto social. Ao fazer isto, não se suprime o indivíduo, por sua vez sistema único. Porém, sua posição e
papel neste ou aquele grupo confere novos significados aos seus comportamentos, tanto quanto as suas características pessoais exercem influência na constelação estrutural e funcional do grupo em questão.
 


EXIT  / SALIDA

ii 2016
ix 2013

vi 1999