Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

PRÁTICAS GRUPAIS - A PSICANÁLISE

Osvaldo Saidon e co-autores

(De Práticas Grupais, Osvaldo Saidon e co-autores, Editora Campus: Rio de Janeiro, 1983)
 


O campo da Psicanálise de Grupos constitui um objeto de estudo que se configura pelo entrelaçamento de distintos e muitas vezes contraditórios esquemas referenciais. A compreensão teórica torna-se, por isso, bastante complexa.

A questão teórica central refere-se à relação entre a Psicanálise segundo seu modelo "individual" (aparelho psíquico) e a Psicanálise grupal: se o indivíduo se constitui com um psiquismo - e este contém interiorizado um modelo grupal - o grupo não se regula segundo o modo de funcionamento individual. No entanto, a subordinação a esta concepção "adaptada" de grupo ao conceito de psiquismo tem predominado nas
diversas Práticas psicanalíticas de grupo. Trata-se de uma leitura que se apóia em pressupostos ideológicos, vale dizer, num enfoque de dinâmica grupal eminentemente individualista, tendendo a colocar o grupo como centro ou unidade. Observa-se, então, uma exaltação ao grupismo pelos membros, que passam a viver imaginariamente o grupo como lugar de realização de desejos.

Essa centralização implica um comprometimento com a impossibilidade do sujeito revelar sua ação transformadora e levantar suas possibilidades de intervir no complexo sistema em que vive. 0 grupo, enquanto instituição, passa a manter sujeitos agregados que são consolados e controlados, recolocando-se sintomas.

Um distanciamento ótimo, que permita a valorização do sujeito enquanto membro de outros grupos, parece importante para a promoção de saúde mental. O relevo à história individual (intra e extragrupo) e ao momento grupal, a referência ao lugar onde se constitui o grupo (instituição) e ao social mais amplo também constituem formas de pensar o grupo buscando o desvendamento da ilusão grupal. Em outras palavras, é a possibilidade de morte do grupo que propicia a busca de identidade, o reconhecimento das diferenças (singularidades),
permitindo que o sujeito se perceba desejante e constituído por elementos desejantes. Essa perspectiva não o isola: ele é sujeito enquanto sujeito social, mas não necessariamente sujeitado a determinações preestabelecidas. O papel do analista, nesse contexto, inclui um repensar que levante os aspectos realizadores e reprodutores de ideologias.

Nas diversas propostas teóricas de grupo, percebe-se uma insuficiência no nível de análise das formulações.  Os aspectos empíricos secundários, assim como os aspectos técnicos, que nada mais são do que uma decorrência teórica (o que nos leva a questionar a chamada teoria da técnica), tomam relevo, deixando um vazio no que diz respeito à estrutura grupal que se institui. Esta, como vimos, jamais é imutável como a idéia de grupo-unidade faz crer, porque é instituído. Se a sociedade instituinte se transforma e se modifica a cada momento, o instituído também se transforma: eis a realidade que não transparece no princípio do prazer, que governa a identidade grupal.

Ao longo da história da Psicanálise de Grupos, poderíamos levantar três tendências (de forma esquemática).

O modelo da Psicanálise no grupo reporta-se à Escola Americana, mencionando-se Shilder e Slavson como seus expoentes. Nele predomina a oposição homem-sociedade e, em termos terapêuticos, busca-se a cura através da análise das motivações intra-individuais dos membros do grupo. A referência básica é a análise individual no grupo.

O segundo modelo é o da Psicanálise de grupo, que se refere à Escola Inglesa, em sua origem: Bion, Foulkes, Sutherland, e na América Latina, Grinberg, Langer e Rodrigué. Seu referencial teórico é a vertente kleiniana e, guardadas as diferenças segundo cada autor, o modelo contém a idéia de que o grupo tem uma estrutura básica.  O sujeito, socializando-se, passa a integrar, enquanto "parte", uma mentalidade grupal.
Deduzem-se do chamado "conteúdo do grupo" os mecanismos de defesa atuantes, as fantasias básicas e o nível transferencial, prevalecente em cada momento segundo o nível regressivo alcançado. Objetiva-se a integração grupal, com a assimilação de uma identidade grupal por parte de cada membro.

O modelo da Psicanálise centrada no grupo traz a contribuição de Lewin, Bateson (Teoria da Comunicação) e de Freud e Melanie Klein. Referimo-nos às propostas de Pichon-Rivière: o grupo é um conjunto operativo que tem por tarefa a cura. O homem não é um ser isolado, mas se inclui naturalmente em diversos grupos. O grupo terapêutico não é uma espécie distinta dos demais grupos sociais: é antes uma experiência social privilegiada, pela possibilidade de visualizar a conduta de seus membros e aspectos inconscientes motivadores. Nesta concepção, enfatiza-se a interação dos membros e a manutenção da produção grupal. O grupo se caracteriza pelo aspecto da interdependência. Distinguem-se três níveis de análise: o geral (princípios gerais dos sistemas-grupo), o particular (manifestações concretas que adquirem esses princípios diante de situações dadas) e singular (conjugação última desses princípios com as idiossincrasias de cada membro do sistema- grupo).

Além desses três modelos, podemos nos referir às concepções de Didier Anzieu para onde convergem as idéias de M. Klein juntamente com outras advindas do pensamento de J. Lacan. Anzieu dá relevo à teoria libidinal e à segunda tópica freudiana, concebendo o grupo como um sonho e segundo seus moldes de funcionamento.

Finalmente, façamos uma referência especial à corrente institucionalista, da qual podemos citar Pagés, Lapassade, Lourau e, ainda, Deleuze e Guattari - estes dois últimos promovendo, atualmente, uma crítica a essa corrente, que pressupõe um referencial psicanalítico e lê o grupo como uma instituição.

Esta breve e restrita delimitação das correntes psicanalíticas exclui diversos autores que também utilizam o corpo teórico da Psicanálise, mas a influência dessa disciplina, em algumas teorizações, pressupõe um afastamento tão grande em relação ao pensamento psicanalítico que, não raro, chega a se reduzir a uma simples utilização formal de alguns de seus conceitos. Entendemos, aqui, que o trabalho psicanalítico refere-se a uma preocupação com o rigor teórico e o objetivo de tornar consciente o inconsciente, seja no campo individual ou grupal. É necessário, nesse sentido, admitir que se, por um lado, a contribuição de outros modelos grupais sobre a Psicanálise contribui para elucidar algumas questões, por outro não tem permitido o avanço de uma construção teórica de grupos.

O aspecto ideológico a que aludimos no início deve muito de sua reprodução, no interior da prática psicanalítica, a essa multiplicidade de modelos grupais. Vamos, assim, encontrar uma influência ainda biológica, que se refere a agrupamentos animais e organímicos, uma fisicalista, como a topológica de Lewin, a formalista-lógica (Gestalt), uma dramática (que se refere à contribuição de Politzer), a estrutural-funcionalista de Parsons e a antropológica-culturalista.

Uma observação final nesta introdução aclaratória, e que assinala a grande dificuldade que é o estabelecimento do campo da Psicanálise de Grupos, leva-nos a admitir que qualquer tentativa de sistematização deixa de descrever as filigranas do entrelaçamento teórico. Assim, alguns autores psicanalíticos citados se influenciam mutuamente.

Esta síntese permite a previsão de um longo caminho a ser percorrido para uma autonomia teórica da Psicanálise de Grupos. Autonomia que não significa um purismo teórico, de resto pouco significativo, mas representa uma distinção ideológica intracientífica, que permita uma prática grupal transformadora e produtora de saúde.

Tentaremos, agora, sintetizar o pensamento de alguns autores que, no campo da Psicanálise de Grupos, distinguem-se por suas obras, sendo considerados aqueles que trouxeram as contribuições mais significativas. São eles: Foulkes, Bion (Escola Inglesa) e Didier Anzieu (Escola Francesa. Incluiremos, também, Grimberg, Langer e Rodrigué, dada sua importância na chamada corrente latino-americana.

FOULKES

Foulkes é o fundador da primeira Sociedade Analítica de Grupo. Sua leitura enfoca o grupo como um todo social, mais do que uma soma das partes. Considera que a transferência não se daria com a mesma intensidade nos grupos como na análise individual. Esta traria um caráter vertical na transferência (referindo-se ao passado); já o grupo teria um caráter horizontal (plano atual e multipessoal). O grupo funcionaria, basicamente, em busca de remoção das inibições sociais. A técnica individual utiliza a associação livre. Por sua vez, a técnica grupal propõe a discussão flutuante livre.

Admitindo a influência dos pioneiros Burrow, Wender e Shilder (americanos), é Foulkes o pioneiro da Psicoterapia Analítica na Inglaterra. Considera, entretanto, que tanto seus conceitos teóricos quanto metodológicos diferem dos americanos.

Foulkes afirma que a Psicanálise de Grupo põe de manifesto a "fenda" existente entre os desejos e o modo de pensar em sociedade, colocando em questão a noção de privacidade. O analista de grupo tem como tarefa limitar a natureza e o alcance da neurose dos sujeitos, confinando-se à situação terapêutica e tornando conscientes os aspectos inconscientes. Assim, quebraria o círculo vicioso da repetição. A vivência do recalcado surgiria no aqui-e-agora, o que Foulkes chama de experiência emocional corretiva, e o analista é uma tela de projeção dessas experiências.

Foulkes dirá que a Psicoterapia Analítica de grupo se constitui num grupo sem intenções ou programações, e este se propõe a realizar comunicações equivalentes à forma da associação livre. O analista interpreta conteúdo, processo, comportamento e as relações entre os sujeitos. As comunicações e relações referem-se ao campo total de interação: o grupo-matriz. Os sujeitos têm participação ativa no processo terapêutico total.  O analista é um observador participante, procurando criar uma situação especial (sentido psicossociológico).

Como dissemos, Foulkes afirma que o grupo é uma totalização que excede o somatório das partes; "em estado de fluxo constante, se organiza em torno de pontos focais".

O grupo será analisado segundo:

     estrutura: pautas de relação em geral estáveis e contínuas. A forma e organização são configurações;

     processo: componente dinâmico da situação: interação dos dados da situação em suas relações e comunicações verbais e não-verbais;

     conteúdo: estrutura e processo seriam os canais por onde se transmite o conteúdo, relacionando as atitudes, ideais, valores, sensações
     e "patologia".

As principais influências da Psicoterapia Analítica de grupo advêm da própria Psicanálise, da Escola da Gestalt, da Sociometria de Moreno, da Sociologia de Mannheim e Elias e da contribuição de Lewin.

BION

Bion supõe que todo conhecimento se origina em experiências primitivas de caráter emocional, em relação com a ausência de objeto. As características inerentes a essas experiências vão influir nas posteriores, e o que Bion pretende assinalar são as invariantes ou estruturas equivalentes presentes "a cada vez que se conhece". A realidade última do objeto é desconhecida e incognoscível, no sentido kantiano. A Psicanálise se ocuparia de objetos psicanalíticos, no sentido de objeto de conhecimento. O conhecimento de si mesmo e de outros conhecimentos dar-se-ia na medida em que se pudesse suportar a frustração inerente à experiência chamada "vínculo K". O amor (L), o ódio (H) e o conhecimento (K) seriam três emoções intrínsecas ao vínculo entre dois objetos.

O pensamento é sempre mutável porque as formulações (idéias) não correspondem jamais à verdade dos fatos. Assim, as interpretações psicanalíticas, ao esclarecerem algum aspecto da realidade psíquica, administrariam verdades parciais. Os pensamentos são considerados genética e epistemologicamente prévios à capacidade de pensar. Nas etapas mais precoces do desenvolvimento, os pensamentos seriam
impressões sensoriais e experiências emocionais primitivas (protopensamentos). Uma preconcepção se aparelharia com a experiência real, e desta combinação surgiria a concepção. Da preconcepção e da frustração (experiência não-realizada ou diferente da desejada), surgiria o pensamento. Existiriam dois "pensar": o pensar que dá origem aos pensamentos e o pensar que consiste em usar os pensamentos
epistemologicamente preexistentes. Dois mecanismos participariam deste último: o primeiro consiste em uma relação dinâmica entre algo que se projeta (um conteúdo) e um objeto que o contém (o continente). Este mecanismo relaciona-se com o conceito de identificação projetiva. O segundo mecanismo seria representado pela relação dinâmica entre as posições esquizoparanóide e depressiva. Esses dispositivos permitiriam o desencadeamento de uma ação no mundo interno e externo, tendendo a modificar o estado de carência dos sujeitos. Para sua consecução, haveria os seguintes passos:

     publicação (operações que transladam os dados do mundo interno para o mundo externo);

     comunicação ("capacidade" social do indivíduo;

     sentido comum. Os fatores chamados inatos (tolerância à frustração) e ambientais (fundamentalmente a relação com a mãe) 
     determinariam o desenvolvimento do sujeito.

Bion irá propor um modelo acerca do funcionamento normal ou patológico, baseado nos conceitos expostos.  Como vimos, estes se apoiam nas formulações de M.Klein e, naturalmente, permeiam a conceituação de grupos. Em 1961, relata sua prática psicoterápica grupal, publicada em um livro que reúne uma série de artigos isolados. Identifica, então, os fenômenos que o levam a formular esses conceitos.

Bion distingue dois significados da terapêutica de grupos: o primeiro diz respeito à catarse da confissão pública e o segundo, à possibilidade de se adquirir conhecimento dos fatores que contribuem para o que chamou de "bom espírito de grupo". Seu primeiro trabalho, na ala de reabilitação de um hospital psiquiátrico, foi promover a realização de tarefas de interesses comuns, com seminários terapêuticos avaliativos. Para haver um bom espírito de grupo, conclui Bion, é necessário que o grupo tenha um propósito comum ("nutrir um ideal") e reconheça o lugar desejado, tendo em vista os grupos maiores. Um resultado terapêutico bom inclui a noção de identidade grupal por parte dos membros.

É importante que o grupo reconheça o valor dos subgrupos e os limites destes, que possa valorizar os sujeitos que o compõem, considerando que a mobilidade de cada um é limitada pelas condições dadas pelo próprio grupo, e que este consiga vivenciar as frustrações. Uma análise psicopatológica não deverá excluir o campo social mais amplo.

Uma outra experiência com grupos, na Clínica Tavistock, permite a Bion formular novas observações.  Observa que o grupo, vivendo uma situação não-estruturada de forma convencional, onde há um terapeuta que não responde às suas solicitações manifestas e se restringe à interpretação do discurso latente, passa a evidenciar emoções de cunho primitivo que alteram o raciocínio crítico. Conclui, então, que o objeto de estudo dos grupos é a investigação dos fenômenos que produzem essas perturbações no comportamento dito racional do grupo. Inclui-se, como terapeuta, integrante desse campo de investigação, já que suas intervenções são orientadas a partir das manifestações que capta através da transferência e contratransferência.

Bion observa que as pessoas estão sempre fazendo uma estimativa da atitude do grupo em relação a si mesmas. Elege esse fato para iniciar sua investigação porque supõe que esse é um fenômeno existente na vida mental do sujeito e também porque "o florescimento ou decadência da vida social de um grupo depende dos juízos que os indivíduos fazem do mesmo".

A leitura da dinâmica grupal sustem uma similitude com o exame de uma lâmina ao microscópio: dependendo da alteração do foco, pode-se perceber uma outra configuração. O grupo, visto microscopicamente, baseia-se num vínculo a fim de que os sujeitos expressem anonimamente os impulsos e desejos que pretendem satisfazer, mas dos quais não querem assumir a paternidade. Esse fenômeno contrasta com a diversidade de pensamento existente na "mentalidade" dos membros do grupo, ou seja, os desejos e pensamentos de cada um.

A noção de "contradição de um grupo" refere-se ao homem enquanto "ser político", que precisaria do grupo para o que Bion chama de realização da vida mental. O sujeito estaria esperando chegar, através do grupo, a uma "vida plena". Como o grupo fracassa em sua aspiração de ser o lugar de satisfação das necessidades do indivíduo, é então desafiado pela mentalidade grupal. O desafio é enfrentado pela elaboração de uma cultura característica de grupo e sua organização. Bion constata que o grupo tende a constituir-se como líder, seja esse líder pessoa, idéia ou objeto inanimado. O líder corresponderia na fantasia grupal ao elemento que iria atender a cada necessidade individual.

A conceituação dos pressupostos básicos, ou hipóteses de base, parte da observação de que algumas interpretações utilizadas nas primeiras experiências com grupos não provocavam insight. Alguns modelos de comportamento grupal reincidiam. Bion conclui que esses pressupostos básicos são os elementos que estariam subjacentes à cultura de um grupo e expressariam o conflito entre os desejos do sujeito e a
mentalidade do grupo. São eles: dependência, luta e fuga, e conjugação (acasalamento), e representam reações defensivas diante das ansiedades psicóticas reativadas pelo dilema do indivíduo dentro do grupo e a regressão que lhe impõe esse dilema. Bion utiliza o termo "valência" para denominar a capacidade do sujeito combinar-se com os outros, segundo os pressupostos básicos.

A preconcepção de grupo e as tentativas de institucionalizar e formalizar: um grupo buscam resguardar o próprio grupo das manifestações dos pressupostos básicos.

Quando predomina o pressuposto de dependência, o terapeuta é vivenciado como o líder revestido de poderes mágicos, onipotente, que irá satisfazer todas as suas necessidades e desejos.  As experiências grupais são consideradas insatisfatórias pelo próprio grupo. Predominam a culpa e a depressão.

O grupo que funciona segundo o pressuposto de luta e fuga baseia-se na convicção de que existe um inimigo, e que é necessário atacá-lo ou fugir dele. Na linguagem kleiniana, o objeto é mau e as atividades defensivas, passíveis de destruição ou evitação. O grupo receia se constituir como tal. Predominam o sentimento de ódio e aspectos destrutivos.

No pressuposto básico da conjugação ou acasalamento, manifesta-se a esperança messiânica, a idéia de um salvador para o grupo. Existe, aí, a idéia de esperança e futuro.

Nos grupos de pressupostos básicos, existem muitos obstáculos para a aprendizagem, pois esse processo supõe frustração e capacidade de espera. O movimento em busca da individualidade conteria um movimento de resistência, acionado para preservar a fantasia onipotente "em que tudo se é dado como se fosse inato".  Ante a desesperança de se dedicar a um processo de desenvolvimento, o sujeito identifica-se com um pressuposto básico ou com o que Bion chama de "aparência refinada". Se o sujeito se identifica irrestritamente com um pressuposto básico, irá se sentir perseguido por aquilo que sente como o intelectualismo do grupo e pelas interpretações. Se se identifica com a aparência intelectual (racionalismo), se sentirá perseguido por objetos internos.

Qualquer pressuposto básico é sempre inconsciente, e todos estão sempre presentes, alternando-se.  As emoções básicas não se conflitam, o que contrasta com o "grupo de trabalho" ou "grupo refinado", que se caracteriza pelo reconhecimento do grupo da necessidade de se desenvolver e se transformar.

A junção do grupo de pressuposto básico com o grupo de trabalho promove o conflito. O grupo básico, por ter uma origem primitiva, tende, assim como o organismo individual, a não suportar o bom e o mau num mesmo objeto. A cisão e a idealização seriam mecanismos frequentemente usados para defender-se da angústia de experimentação e transformação.

Bion postula a existência de um sistema protomental, ao qual já nos referimos, e que corresponde à matriz de onde surgem os fenômenos. Neste sistema, predomina a indiferenciação. Os níveis protomentais originariam as patologias grupais. Este é o campo, diz Bion, a ser atingido pela investigação do terapeuta: as etapas protomentais dos pressupostos básicos e a relação dos sujeitos com um determinado pressuposto básico.

O que promove a mudança de um pressuposto para outro é a "idéia nova", que não pode ser manipulada na cultura do grupo de trabalho nem neutralizada na cultura de pressupostos. No grupo de dependência, o grupo passa a buscar outro líder. No grupo de luta e fuga, surgem atividades que dizem respeito a usurpação do lugar do terapeuta, ou a tendência "a ser possuído" por um grupo externo. No grupo de acasalamento, ocorre um cisma.  A passagem de um ou outro pressuposto ao grupo de trabalho não se efetua em um momento dado, mas a todo momento: o nível primitivo irá coexistir com outro nível de funcionamento.

A sociedade, para Bion, seria um grande grupo que também apresentaria os mesmos fenômenos.  As organizações e instituições constituiriam grupos que teriam a função de conter e instrumentar os pressupostos básicos. Por exemplo, à Igreja caberia o pressuposto de dependência, ao Exército, o de luta e fuga, e à aristocracia o de acasalamento. O fracasso dos grupos institucionalizados em conter o pressuposto básico
provocaria reações nos subgrupos, de tal modo que ocorreriam mudanças.

As alterações promovidas pelas "idéias novas" fomentariam o fenômeno denominado "mudança catastrófica", atuando sobre a estruturação do campo onde se manifesta. A idéia nova seria um conteúdo do grupo e este, continente. Ao termo "mudança catastrófica", agregam-se outros: a violência, a subversão do sistema e a invariância. Este último refere-se ao reconhecimento presente na nova estrutura, de aspectos da anterior.

Tentando relacionar os pressupostos básicos com o grupo de trabalho, Bion irá se referir aos enunciados de Klein sobre fantasias primárias. As primeiras relações objetais, as ansiedades psicóticas e os mecanismos de defesa formam a base teórica para essa compreensão. As ansiedades infantis seriam reativadas nas situações adultas. As exigências e complexidades derivadas do pertencimento a grupos promovem uma regressão. Um grupo estável, entretanto, reproduz padrões de grupos de família e mecanismos neuróticos, e a linguagem é simbólica. Em oposição, a linguagem no grupo de pressupostos básicos é utilizada como ação e despojada de qualidade comunicativa. A função terapêutica nos grupos é promover o grupo de trabalho e as idéias novas.

Com respeito aos sujeitos que se destacam por portarem idéias novas, a quem denomina "gênios", Bion categoriza a forma do vínculo possível do grupo com eles:1) comensal, caracterizada pela coexistência do sujeito dentro do grupo sem confrontação; 2) simbiótica, cuja confrontação seria benéfica; 3)parasitária, caracterizada pela inveja. Nesta última, por exemplo, o gênio poderia ser absorvido e neutralizado enquanto
portador de idéias novas.

O stablishment ou sistema teria a função de conter, expressar e institucionalizar o grupo do poder da idéia.

DIDIER ANZIEU

Didier Anzieu recorre a uma bibliografia ampla: além de buscar referência em sua própria experiência, retoma criticamente Ballint, Bion, Burnier, Deleuze, Guattari, Ezriel, Foulkes, Kaes, Klein, LeBon, Pagés, Pontalis, Rogers, Sartre e Slavson, além de Freud, Klein, Winnicott e outros para tentar conceituar grupos. 

A princípio, faz uma distinção entre Psicanálise Geral (que pressupõe a instauração de uma situação, regulada de maneira precisa e a teorização do aparelho psíquico) e a Psicanálise Aplicada: um conjunto aberto e um desenvolvimento das práticas concretos do método geral.

O método chamado geral diz respeito às posições diferentes do analista e do sujeito analisado e às regras comuns e específicas, como, por exemplo, a tarefa do sujeito analisado, que consiste em expressar o que pensa, imagina e experimenta, enquanto a tarefa do analista é entender esses discursos e interpretá-los. A tarefa da Psicanálise Aplicada deve ser a descoberta dos efeitos específicos do inconsciente em uma determinada esfera e as transposições requeridas por esta esfera do método geral, em função da natureza do objetivo a alcançar pelo trabalho analítico ou da natureza dos sujeitos analisados.

Anzieu define as condições gerais para a realização de qualquer trabalho psicanalítico. O primeiro critério é que o psicanalista só pode trabalhar em um determinado campo se tiver como referência uma prática pessoal indispensável à cura individual de pacientes adultos. As regras que instauram a situação analítica devem sempre ser enunciadas: o analista não pode eximir-se da lei que impõe ao sujeito; as regras, como objeto de catexis fantasmática e defensiva, devem ser interpretadas. A cura finaliza quando o psicanalista não é mais objeto de transferência e sim reconhecido como sujeito semelhante e quando o paciente assimila o caráter operativo das regras.

Anzieu afirma que as hipóteses sobre os processos inconscientes submetem-se a três princípios:

a todo tipo de fato clínico corresponde uma hipótese que o analise;

toda hipótese encaixa-se num sistema coerente de hipóteses específicas do campo (exemplo: a produção ideológica de um grupo aparece como uma negação defensiva de um fantasma originário, constituindo uma extensão ao grupo do processo de produção concernente às teorias sexuais infantis);

toda hipótese confirma sua veracidade pela fecundidade num terreno diferente daquele em que foi estabelecida (exemplo: a hipótese de que a situação de grupo amplo não-dirigido suscita a transferência negativa, ajuda-nos a entender por que nos grandes grupos sociais reais ocorrem expressões arcaicas violentas de agressividade). O procedimento psicanalítico aplicado aos fenômenos de grupos deve obedecer "a critérios psicanalíticos".

Anzieu sustenta uma analogia entre o grupo e o sonho, fazendo uma referência à segunda tópica freudiana.  Esta concebe os conflitos inter e intra-sistemáticos, por similitude com as tensões interindividuais no seio de um grupo, explicando, então, o aparelho psíquico individual pela interiorização de um modelo grupal. Deste modo, citando Kaes, o autor nos fala de um aparelho psíquico grupal (uma perspectiva reversa da analogia de Freud), dotado das mesmas instâncias que o individual, ainda que não dos mesmos princípios de funcionamento. Anzieu ainda evoca outro autor, Misserand, para afirmar que o principal efeito formativo dos métodos de grupo seria a destruição de algumas identificações imaginárias dos participantes e sua substituição, num primeiro momento por identificações narcisistas estabilizadoras e, mais tarde, por
identificações simbólicas "renovadoras".

Anzieu cita, ainda, a contribuição importante da escola kleiniana, identificando a angústia nos grupos como de caráter psicótico. Diz que os conceitos psicossociológicos de Lewin, Rogers e outros procedem de uma atitude defensiva frente aos processos grupais inconscientes, criticando ainda a excessiva ênfase ao fenômeno da liderança, contrapondo com a afirmação de que esta representa um aspecto resistencial do
grupo. Critica, ainda, Fourier, Mayo, a Sociometria de Moreno e o interacionismo de Bales: os dois últimos e Lewin reproduziriam a atitude behaviorista de Watson, introduzindo concepções baseadas em fatos observáveis, em detrimento dos fatos inconscientes.

Um outro critério em termos de procedimento psicanalítico diz respeito à concepção de determinismo: todo processo inconsciente deve explicar-se desde as perspectivas dinâmica, econômica, tópica, genética e fantasmática. Por outro lado, é preciso lembrar a interação existente entre o inconsciente dos sujeitos e o inconsciente daquele que interpreta.

Anzieu afirma que toda situação psicanalítica, inclusive a grupal, se baseia nas regras fundamentais de não-omissão e abstinência. Insiste nas definições de unidade de tempo (horário), unidade de espaço (lugar próprio) e unidade de ação (tarefa).

O trabalho analítico com o grupo consiste na interpretação da transferência através da análise da contratransferência (como no trabalho com pacientes individuais). No entanto, existem particularidades da transferência nos grupos. A primeira delas é a tendência à cisão da transferência (a transferência positiva se concentra sobre o grupo como objeto libidinal). A segunda diz respeito ao fato de que a situação psicanalítica grupal provoca uma transferência sobre o grupo, que é tomado inconscientemente, pêlos participantes, como objeto de catexis pulsional e fantasmática.

As regras reguladoras do trabalho de interpretação grupal, descritas por Ezriel e subscritas por Anzieu, são:

interpretação das angústias, defesas e desejos inconscientes atuais (no aqui-e-agora), em oposição à interpretação do trabalho individual que assinala a repetição da situação infantil no conflito atual.  A interpretação será coletiva, embora em alguns momentos seja necessária a interpretação individual.
O grupo, afirma, é um lugar de fomentação de imagens. Desde o momento em que seres humanos estão reunidos para trabalhar ou com outros objetivos, os sentimentos os agitam, excitam ou paralisam.

A partir da noção de catexia narcísica no sujeito, Anzieu irá elaborar a noção de ferida narcísica no grupo. O grupo sente-se ameaçado de por em evidência seus pontos débeis, preferindo dissimular-se. A catexia narcísica e a defesa contra a ferida narcísica, observa Anzieu, fundamentam uma resistência à investigação científica nos grupos.

O grupo representa a ameaça primária para o sujeito. Este não existe como tal, exceto quando tem sentimento de unicidade do corpo e psiquismo. O grupo levaria o sujeito ao lugar onde este ainda não tinha se constituído, onde se sentia desagregado. Por sua ausência de unidade interna, pela múltipla manifestação de desejos diferentes, o grupo impõe a seus membros uma representação mental concreta da disseminação de si mesmo. Essa imagem de corpo despedaçado pode ser superada quando ocorre uma emoção comum agradável, paralela ao descobrimento do "sentir-se membro" e ser reconhecido. Esta concepção não implica forjar um mito que captaria as energias individuais e instalaria a crença em uma ordem social segundo "a modalidade dos arquétipos platônicos". Tampouco é interessante conceber o grupo como um sistema de funções interdependentes: privilegiaríamos, neste caso, a interdependência funcional em detrimento dos indivíduos, e isso seria uma forma de tentar determinar "a forma de funcionamento dos grupos". Anzieu diz que existem elementos auto-reguladores nos grupos, embora a própria natureza grupal indique que não se deve privilegiar esse aspecto.

Entre o grupo e a realidade, entre o grupo e o próprio grupo, há algo mais que relações entre forças reais: há, primitivamente, uma relação imaginária. As imagens que se interpõem entre o grupo e o próprio grupo, entre o grupo e o ambiente, explicam os fenômenos e processos grupais. A situação de grupo é vivida ao nível das representações imaginárias mais arcaicas. A tarefa do terapeuta é a de ser permeável às representações imaginárias, elucidá-las enquanto obstaculizadoras do funcionamento grupal

Os grupos sociais "reais" (associações, organizações etc) também apresentam a representação imaginária do desejo: o grupo, como um sonho, é um debate com um fantasma subjacente. Do ponto de vista dinâmico, o grupo é um sonho, assim como o sintoma: em cada um de seus episódios, há desejo e defesa. Naturalmente, o desejo de realização imaginária que o grupo mantém a respeito de si mesmo é o desejo irrealizável, o absoluto desejo impossível, o sonho de uma sociedade regida pelo princípio do prazer.

O grupo evoca o sentimento de perigo representado pela pulsão, oferecendo uma dimensão privilegiada para o exercício das perversões e, às vezes, se converte em patógeno: a fascinação do desejo proibido, em lugar de encontrar, através da associação grupal, sua realização imaginária, provoca: 1) a passagem à ação ou 2) o fantasma portador do desejo encontra um modo de realização específica.

O desejo a ser "realizado" no grupo e o sonho consistem em um desejo reprimido na infância (os adultos no grupo voltam a ser crianças).

O sentido do desejo permanece incompreendido: as ações no grupo são os deslocamentos, as condenações e as figurações simbólicas. O analista compreende o que está oculto e diz a verdade, ou seja, leva o fantasma à palavra. A força do desejo está focalizada no fantasma, e a maior dificuldade nos grupos é pensar sua ação, tendo em conta os segmentos da realidade em que estão inseridos e sobre os quais atual,
na medida em que estão infiltrados pelos fantasmas individuais. A elucidação da angústia é inoperante se não for elucidado o fantasma que a sustém (angústias edípicas e pré-genitais).

O id está presente no grupo através da pluralidade de sujeitos, evocando a cada membro a diversidade das pulsões libidinais. Existe um ego fictício no grupo, a partir do qual se diferencia um superego (as regras comuns).

Anzieu considera ainda não suficientemente precisas tanto a natureza como a gênese e função dessas instâncias no grupo, para se configurar metapsicologicamente uma teoria de grupos.

Ao conceito de grupo como um sonho, acrescenta o conceito de ilusão grupal, que se sege às três formas sociais de ilusão descritas por Freud (ilusão religiosa, artística e ideológica).

Se o sonho é a ilusão individual por excelência, a reunião de grupo seria uma forma de colocar a realidade exterior entre parênteses. Ocorre, por esta razão, uma supercatexia do grupo, que toma a si mesmo como objeto libidinal, resultando numa correlação negativa entre a catexia grupal da realidade e a catexia narcisista do grupo. dá-se uma tripla regressão: cronológica, tópica e formal. Esta regressão não se efetua apenas em termos de narcisismo secundário, mas, também, a nível de narcisismo primário, ocorrendo uma ameaça angustiante de perda da identidade do ego. A nível tópico, nem o ego nem o superego controlam os representantes da representação da pulsão: o grupo se converte para seus membros como substituto do objeto perdido (ego ideal). A regressão formal do grupo se observa através de formas arcaicas de expressão, próximas do processo primário.

Anzieu diz que o espaço imaginário do grupo é a projeção do corpo fantasiado da mãe. A proposta fantasmática do grupo é, por sua vez, estar num lugar "fora do tempo", reunindo-se "naquilo em que são semelhantes". Essa utopia coletiva serve como mecanismo de defesa.

Do ponto de vista dinâmico, a situação de grupo diz respeito à perda de identidade do ego. A ilusão grupal responde a um desejo de segurança e preservação da unidade egóica.

O ponto de vista econômico é explicado a partir dos conceitos kleinianos: no fantasma da destruição do bebê no ventre materno se origina o processo paranóico grupal, quando seus membros se sentem ameaçados de aniquilamento.

Do ponto de vista tópico, a ilusão grupal, como dissemos, ilustra o funcionamento nos grupos do ego ideal (um ego ideal comum). Citando Klein, Anzieu afirma que a ilusão grupal relaciona-se à "comida do grupo", uma figuração simbólica da introjeção do seio como objeto parcial. Também faz referências a Lacan: a ilusão grupal é a forma particular que o grupo toma do "estado do espelho".

Finalmente, do ponto de vista genético, a situação de grupo provoca uma regressão da posição edípica ao estado oral. O conceito de Winnicott de objeto transacional, então, é aplicado ao grupo, enquanto este se coloca numa etapa intermediária entre a função fantasmática e o reconhecimento da existência da realidade como tal.

Grimberg, Langer e Rodrigué

Para Grimberg, Langer e Rodrigué várias conceituações psicanalíticas vieram contribuir para a solução do dualismo indivíduo-sociedade.  Ressaltam, entre outras, a constatação da importância do meio ambiente para o desenvolvimento do sujeito e o modelo teórico do superego. Agregam, ainda, o próprio método psicanalítico, que considera o sujeito-paciente, a partir da situação do encontro (o aqui-e-agora) e, portanto,
em interação social.

O meio ambiente diria respeito à participação dos fatores históricos na estruturação da personalidade. O conceito de superego daria ensejo à compreensão da sociedade e suas instituições, como entidades internas assimiladas à estrutura do indivíduo. O método refere-se à situação transferencial, que permitiria a reconstrução do passado, na medida em que este se manifesta, de certa forma, revivido no presente.

Os autores afirmam que a Psicanálise inaugura uma Psicologia Bipessoal, tendo em vista os aspectos transferenciais: o paciente que experimenta emoção e o analista a quem essa emoção é dirigida. Distinguem, então, uma "nova" Psicologia: a multipessoal ou microssociológica, cujo enfoque beneficiaria a Psicologia e a Sociologia. Estas representariam enfoques distintos do mesmo fenômeno. Essa Psicologia constituiria o campo ótimo da Psicologia Social.

As idéias geratrizes do estudo do homem referem-se, para os autores, a Darwin e Marx: o primeiro trazendo o conceito de evolução e transformação, e o segundo a noção evolutiva de processo que dá relevo ao interjogo dialético existente entre objeto e sujeito.

Os autores destacam dois métodos psicológicos, a saber, o unipessoal, introspectivo, relacionado à compreensão intelectual-consciente, e o psicanalítico, bipessoal. Colocam a Psicoterapia de Grupo como uma terceira proposição, desenvolvida a partir das noções da Psicanálise e da Sociologia e que se ocuparia das relações multipessoais grupais. A Psicologia Bipessoal seria simples demais para permitir uma generalização sociológica e, ao inverso, um grande grupo conteria muita complexidade para permitir a análise psicológica.

O grupo psicológico é aquele no qual seus membros, em determinado momento, estabelecem uma interação precisa e sistemática. "As pessoas se conhecem e se identificam, possuem uma percepção coletiva de sua unidade". A estruturação e a organização desse grupo se dá pela convivência; o grupo é vivido como um contexto.

Os mesmos elementos levados em conta na Psicoterapia Individual são considerados no grupo. Nesse sentido, há uma transferência grupal através da "conduta unitária" do grupo, que se configura como uma pluralidade de pessoas. Estas adquirem um sistema de crenças e tradições, representando a ideologia grupal.

O grupo cria um sistema de papéis, e em cada um deles condensam-se estereotipias (expectativas, necessidades e crenças irracionais de todo o grupo), sucedendo-se a distribuição e interjogo desses papéis.

No contexto terapêutico, a interpretação diria respeito muito mais aos papéis representados pelos sujeitos do que a eles próprios. Esses papéis constituíram a fantasia básica inconsciente de grupo.

O objetivo terapêutico, inclui a supressão dos sintomas e o incremento da adaptação e integração do grupo na sociedade. No plano individual deveriam ocorrer modificações com a introjeção do novo, do não-destruído.

A transferência, concebida como um campo psicológico, corresponde a uma Gestalt. Ressaltam, por exemplo, a contribuição de Shilder, que centra o processo terapêutico na obtenção do insight, definindo-se como a habilidade de ver as estruturas do mundo real, objetivando a aclaração da ideologia do sujeito.  Shilder considera necessária a aclaração, igualmente, da ideologia do psicoterapeuta. A crítica dos autores
diz respeito à diretividade de Shilder e à consequente dificuldade de obter associação livre no grupo. Slavson é citado como um autor que considera a Terapia de Grupo como de cunho analítico, porque o método seria similar à Psicanálise Individual, utilizando transferência, catarse, interpretação de conteúdos latentes e análise dos sonhos para provocar o insight. Grimberg, Langer e Rodrigué pensam que Slavson propõe um enfoque estático de grupo, na medida em que sua leitura corresponde a uma soma de pessoas que equivaleria a uma só, dominada por uma síndrome específica. Foulkes é citado como autor importante pela sua concepção de grupo como um todo social, ou seja, mais do que a soma das partes. Foulkes afirmava que a análise individual teria mais possibilidade de provocar regressão, e esta não seria tão intensa no grupo, o que não é contestado pelos autores. Irão destacar, da obra de Bion, a concepção de totalidade psicológica e a interpretação dos fenômenos emergentes no grupo como um "acontecer global", embora questionem os pressupostos básicos (dependência, luta e fuga, acasalamento), no que diz respeito à transição de um pressuposto para outro, bem como sobre as conclusões de Bion sobre a linguagem simbólica dos grupos.

Consideram que a teoria de Bion, centrada nos pressupostos básicos, restringiria as possibilidades interpretativas, já que em sua prática teriam encontrado múltiplas variações nos pressupostos básicos.  Estas variações ocorrem quando são modificados os conteúdos emocionais das estruturas primitivas, às quais os pressupostos básicos correspondem.

Esta revisão bibliográfica é importante na medida em que toma diversas contribuições, e marca uma diferença entre as concepções de grupo dos vários autores. Grimberg, Langer e Rodrigué percebem o grupo como uma integração de distintos elementos, que constituem uma totalidade gestáltica, ao invés de somatório de indivíduos. Para justificar essa concepção, fazem referência à Biologia, buscando a definição de
organismo como algo muito mais do que as partes integrantes. Lembram, ainda, que o momento histórico traz a convicção de que o mundo é um todo indivisível e o fato político-social aparentemente isolado na verdade não o é, porque repercute no equilíbrio geral e advém de processos mais amplos. "O mundo não é estático e regido por ordem inalterável, e sim algo em movimento, transformação e interação.

Haveria técnicas de grupo que atuariam "pelo grupo", ressaltando a influência das emoções coletivas sobre os indivíduos. Outras buscariam modificar o sujeito "no grupo", mediante interpretações dirigidas individualmente. A proposta dos autores reside na Psicoterapia de Grupo, considerando-o unidade dinâmica, totalizada e contendo uma completa interação de forças.

Os autores recomendam uma participação ativa do psicoterapeuta e a interpretação sistemática das fantasias inconscientes em função dos papéis vividos pelo grupo. Esse enfoque de tratamento de grupo relaciona-se amplamente aos conceitos kleinianos de posição esquizoparanóide e depressiva, mecanismos de projeção e introjeção, idealização, negação, relação de objeto etc.

O Grupo Terapêutico, para ser denominado como tal, se constituiria por sujeitos que se reúnem de comum acordo, compartindo normas e objetivando a cura. As indicações teriam restrições: os casos de depressão grave e as personalidade psicopáticas não poderiam ser tratadas em grupo. Um outro tipo de restrição refere-se aos limites para a cura, em função das características institucionais. A esse respeito afirmam que "curar um indivíduo sem que se cure o grupo familiar a que pertence muitas vezes significa desequilibrar esse núcleo e provocar a enfermidade dos demais.

Tentamos, brevemente, apresentar as Escolas Psicanalíticas cuja repercussão na prática dita analítica de grupos foram as mais representativas. 

A abordagem teórica, até então, parece fundada numa articulação entre a Psicanálise e correntes filosóficas e sociológicas.

A importância dos aspectos políticos e ideológicos no interior das conceituações e práticas tem sido cada vez mais assinaladas como um ponto necessário de questionamento, no sentido de retornar o aspecto transformador da Psicanálise. A Corrente Institucional adquire, nesse contexto, um recurso que fornece interessantes subsídios para a análise das propostas teóricas. Assim, as determinações inconscientes e
institucionais que permeiam tais propostas, na medida em que tomam relevo para análise, permitirão as transformações necessárias para o aperfeiçoamento das práticas. 

Na introdução, procuramos assinalar algumas questões passíveis de reflexão e que, de modo geral, constituem entraves para o desenvolvimento teórico.

A vigilância aos dados empiristas-fenomenológicos em alguns autores reflete a busca de uma Metapsicologia do psiquismo grupal. Tal tendência, entretanto, promove determinadas analogias algo radicais, tendendo a definir os processos ideológico-sociais e os referentes à produção de conhecimento, segundo uma leitura rigidamente "psicanalítica". Essa perspectiva pressupõe que existe um campo psicanalítico e que o que se encontra à margem desse campo "não é Psicanálise". Nesse sentido, os conceitos passam a determinar a produção do real e o real a "adequar-se" à teoria, agenciando a realidade. 

A recuperação da função desejante, sob esse prisma, permanece negada: referimo-nos à criação de normas e códigos grupais que pretendem conservar o grupo, determinando pautas que excluem o contraditório e mantêm o sujeitamento.

O objetivo de uma Psicanálise de Grupos é, antes de tudo, o corpo social e seu inconsciente. Conhecer suas leis de funcionamento, sem dúvida, permitirá um instrumento mais eficaz e transformador. O grupo se define desde uma perspectiva histórica, expressa um lugar onde, a partir dos recortes individuais, se refletem determinantes econômico-político-sociais; onde o poder, os discursos e a sexualidade são elementos desejantes instituídos que estão decisivamente presentes nas patologias, por isso mesmo indicando a urgência de seu desvendamento.

EXIT  / SALIDA

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vi 1999