Instituto Mexicano de Relaciones Grupales y Organizacionales
Mexican Institute of Group and Organizational Relations

Uma visão particularíssima sobre Bion

Jansy Berndt de Souza Mello
jansy@tba.com.br
 

Resolvi inscrever um trabalho para esta Jornada porque, de alguma forma, sentia-me em falta ante a memória de W. R. Bion, de quem acompanhei importantes momentos nas ocasiões em que esteve no Brasil. Achei que seria interessante oferecer um testemunho daquilo que presenciei durante nossos encontros de trabalho.

Conheci Bion quando ele veio pela segunda vez ao Brasil. Vi-o apenas de longe, quando participei de algumas supervisões e conferências. Já em sua próxima visita, quando ele decidiu passar um mês em Brasília, graças à iniciativa de Virgínia Bicudo, tive a oportunidade de organizar sua estadia naquela cidade, encarregada desde os mais triviais arranjos domésticos até as tarefas de traduzir alguns seminários clínicos e as conferências na Universidade de Brasília.

Desde aquela época, em 1975, mantive-me em contato com quase toda a família Bion, acompanhando passo a passo suas viagens e publicações. Uma simpática fantasia de W.R.Bion ganhou expressão na escrita do seu punho quando ele me agradeceu pela remessa de um livro sobre pássaros, que eu lembrava interessarem-lhe em especial (quem sabe foi devido a este interesse que um dos personagens da sua trilogia "A Memoir of the Future" se chamasse Robin (tordo)?  Ou seria Robin apenas o anagrama do seu nome, R.Bion? ). Em sua carta, Bion
referiu-se à suposição de ser uma "personalidade adastral" porque o livro sobre pássaros o alcançou inicialmente como uma encomenda anônima, um encontro com a sorte.

O período sobre o qual pretendo me estender é o da sua última viagem ao Brasil, em abril de 1978, porque foi apenas nesta ocasião que pude perceber que havia algo muito especial sendo comunicado através de recursos expressivos, não verbais e que corria em paralelo ao conteúdo manifesto das falas de Bion. Até então, apesar de dona Francesca referir-se freqüentemente à enorme capacidade de improviso de Bion, eu havia observado ( por ter ficado como intérprete ao seu lado durante alguns jantares e recepções), que ele ensaiava antes, em suas
conversas (comigo, ou com quem estivesse ao seu lado? ), o que diria mais tarde, durante a conferência. E foi por isso que, no início, ele me parecia ser, simplesmente, um velho psicanalista, um tanto repetitivo, que praticava uma espécie de "bio-misticismo apocalíptico".

Bion se servia de um caminho que me parecia ser desnecessariamente complexo para expressar uma atenção pessoal. Foi assim que, após um seminário no qual me senti atrapalhada para traduzir o bate-boca entre dois analistas ( eu me vira tentada a omitir trechos das falas, ou a atenuar-lhes o tom belicoso....), ele me chamou de lado e, quase sussurrando, recomendou-me o nome de um livro. Descobri bem mais tarde que se tratava da história de um espião para a Rússia, Richard Sorge, que trabalhava no Japão quando foi preso e fuzilado como traidor.  Percorrendo o livro por alto, bastante desapontada, nada encontrei que me servisse para relacioná-lo ao que havia se passado durante o seminário. Mas, na orelha do livro, algo que talvez sintetizasse o espírito do texto, chamou minha atenção. Ali, Sorge era descrito como pessoa que traiu os amigos e que abandonou a pátria, porque pretendia manter-se fiel a uma única verdade. Teria Bion escolhido aquele caminho para me convidar a fazer-lhe a tradução completa da briga, sem tantas hesitações? Seria, mesmo, esta a fidelidade requerida?

Já em 1978, em São Paulo, pude dedicar-me às traduções de uma maneira nova, como não havia ocorrido em Brasília. Foram quarenta e nove seminários clínicos aos quais assisti em sucessão, concentrados nas duas primeiras semanas de abril: três seminários na parte da manhã e dois, à tarde. Ouvi repetirem-se as mesmas questões, frases, analogias, mas comecei a perceber que não se tratavam de meras repetições. O que eu vislumbrava não se assemelhava ao Bion "oficial" e minha vivência, perturbadora e inquietadora, parecia-me uma espécie de delírio. Por sorte uma cartinha de Bion forneceu-me algum alento. Ao referir-se às traduções que eu fizera, ele escreveu: " I would like to thank you for the part you played in translating for me; I know how very difficult that must be, especially to get as close to my meaning as you did". E era isso mesmo que eu sentia, uma dificuldade especial que provinha daquilo que estava acontecendo durante os seminários. Nestes, cabia-me "tomar
parte" e "desempenhar um papel" que ia além da tarefa da tradução. Chegar perto do sentido do que Bion expressava era mais do que entender o que ele estava dizendo. Era uma experiência emocional que, algumas vezes, provocava em mim uma sensação de estranheza e me privava das garantias comuns da realidade quotidiana.

Um exemplo bem simples, extraído de um dos seminários clínicos de 1978, servirá como introdução a uma destas questões:

A paciente da apresentação clínica havia entrado no consultório muito assustada, porque não tinha visto sair o analisando que a antecedera. Bion comentou, então, que ela estava "all-alone with the analyst, all alone with the room, all alone with the couch" e, enquanto eu descrevia a paciente como estando muito sozinha com o analista, muito sozinha com o consultório e assim por diante, fui me sentindo pouco confortável. O tom de voz de Bion, ao pronunciar a palavra " with", era mais nítido e vinha após uma discreta pausa. Também não me parecia correto
supor que ele estivesse descrevendo cada detalhe do consultório como se o convocasse para fazer companhia à solidão da moça. Quem estivesse assim tão sozinho deveria estar "sem" alguma coisa, em vez de estar sempre "com" algo, pensei ! Minha tradução alterava o sentido principal do que estava sendo comunicado porque este não dependia da correção das transposições verbais conseguidas. Interrompi-me e confessei-lhe que não estava encontrando as palavras certas para descrever aquilo que se passava com a analisanda, "sozinha com o analista,
sozinha com a sala...". E ele respondeu: " E a analisanda também não! E quando ela for capaz de falar disso, já terá se esquecido da experiência que viveu".

Pronto. E essa agora? O intraduzível havia ganhado uma expressão diferente e atual através das vivências de solidão e dependência enquanto manifestações de uma característica básica, associada ao desamparo e à crueldade. E para quem se dirigia a resposta de Bion? Eu sabia que Bion não se aproveitaria de uma situação em grupo para interpretar algo que dissesse respeito à vida particular de um dos presentes. Embora tudo apontasse para uma atribuição, a mim, de um splitting entre razão e emoção ou entre acontecimentos do período pré e pós-natal, não era este o significado comunicado. Havia um recado mais amplo e que se servia de mim, da minha incompetência, como porta-voz para o que estava acontecendo com todo o grupo. Naturalmente, a forma pela qual este recado se deu, atingiu-me diretamente, mas, em vez de me sentir "interpretada" ou rotulada, senti-me convidada a dar espaço para acolher aquela emoção desconcertante e trêmula, para as minhas vivências de solidão e dependência que ali tomavam forma e me pressionavam como a intuição de algo já vivido e não totalmente passado.

Talvez fosse este um dos motivos pelos quais Bion não entendia aquilo que fazíamos como sendo "uma supervisão", apesar de aceitar a designação "seminário clínico". Nestes, ele não se dispunha a falar sobre o analisando, ou sobre o analista-apresentador, ou sobre o que havia acontecido alguns dias, ou horas antes, em um consultório! O que ele realizava era, acima de tudo, um trabalho com um grupo e, para este fim, ele provocava a atualização de eventos que diziam respeito não apenas ao que o analista tinha vivido com seu analisando.  Ocorria
outra coisa, ali, algo muito especial. O grupo reunido para o seminário, quer o percebesse ou não, era levado a tomar parte naquilo que ali se oferecia. E o que o apresentador trazia nem sempre era aquilo que ele acreditava estar comunicando. Suas falas, lapsos, pausas, hesitações - e, até mesmo, as dúvidas que ele suscitava em mim, como tradutora, ou nos demais participantes, eram tomados, por Bion, como uma parte integrante do material clínico que estava sendo apresentado.

Bion insistia na idéia de que a mente, ao contrário do cérebro, não tinha limites físicos, como os do contorno do crânio e do corpo. Trabalhando com ele, às vezes eu duvidava da minha capacidade de transpor, para o português, o que ele descrevia quando se referia à "mente humana" ou à "mente individual", para diferenciá-las dessa "mente" ilimitada, uma realidade mais abrangente do que a "mente grupal", ou às ocorrências no campo "proto-mental". Também existia a possibilidade de ele estar considerando, nessas horas, que "um indivíduo fosse um ‘grupo’ ", ou que a palavra mente pudesse ser tratada como sinônima de "alma", "personalidade", "psiquê", "verdade última", "consciência" ou "O" ( tudo isso!). Seja como for, a investigação em andamento durante os seminários clínicos quase sempre se endereçava a esta "mente sem limites", enquanto seus participantes eram tomados como elementos de um conjunto, figurantes de um mundo interno, como os personagens da "Trilogia".

II - Uma Questão de Fé

Num achado feliz, a poeta Emily Dickinson descreveu a fé como "uma ponte sem pilares" e é este o convite que emerge das falas e dos textos de Bion. Entendo que para ele será preciso buscar aquilo que nos chama de outra margem, sem nos agarrarmos ao concreto e ao sensorialmente apreensível. Como ele escreveu em seu trabalho sobre "Caesura": enquanto analistas, devemos investigar a sinapse, o corte, a cesura para, deste modo, percebermos o vínculo que aproxima uma margem da outra e o que se expressa entre elas. É quando nem mesmo
as palavras ou as frases servem para veicular o significado do que estiver acontecendo.

Temo que me falte uma fé como esta, pois reconheço que me sinto mais à vontade quando estou lidando com conceitos e teorias, ou seja, prendendo-me aos pilares do pensamento lógico. Assim, apesar do encantamento com o "meu" Bion, e da profundidade que suas falas alcançaram em meu coração, não me reconheço como sendo bioniana ( seja lá isso o que for). Poderia eu acreditar, sem hesitar, que a identificação projetiva seria mais do que uma fantasia de onipotência? Ou que, no consultório, eu esbarraria em uma mente com qualidades reptílicas vestigiais ? Ou que, na platéia de um jogo de futebol, eu estaria assistindo a uma cena que ocorresse mais além daquele jogo? Ora. Não creio em bruxas...

Mas... "que las hay, las hay" ou, como Bion o descrevia, se não eram bruxas, seriam uma divindade destrutiva cujos esforços arrasavam acordos e pontes, atacando os vínculos como aquele deus, que pôs por terra a torre de Babel e que montou uma armadilha para nela prender o próprio filho.

Nos últimos seminários clínicos de Bion em São Paulo havia um tom de urgência que se fazia sentir, lado a lado à cautela contra alguma explicitação "precoce" que ele viesse a propor aos participantes de um grupo ainda imaturo para lidar com ela. Em vários momentos tive a impressão de uma luta silenciosa sendo travada contra a emergência daquilo que ele chamava de "-K", porque alguma idéia que ele parecia precisar transmitir naquele momento, não encontrava acolhida.

Às vezes eu tinha a sensação de que eu era mais forte e corajosa do que os colegas, como se fosse alguém muito especial com quem Bion pudesse contar para arcar com o peso de alguma idéia nova. Messiânica? Felizmente (para mim ), um ou outro participante, em conversa comigo, confessava-me ter sentido algo parecido e estar vivendo a impressão de que Bion se dirigia exclusivamente a ele.

É fazendo esta ressalva que confessarei algumas das fantasias que me acometeram, porque sei que o que se passou comigo foi pouco importante enquanto "coisa individual", embora tivesse valor como informação sobre a emergência de um aspecto inconsciente daquilo que o apresentador estava expressando sobre o paciente.

Quando, por exemplo, o analista construía suas frases deixando-me sem saber se o paciente era do sexo feminino ou masculino, e eu tinha que lhe perguntar, diretamente, se o sujeito da frase seria "he" ou "she" ( em português o emprego do sujeito oculto é mais fácil do que em inglês ), Bion utilizava este percalço como mais um dado sobre a relação transferencial na sessão descrita e que se presentificava novamente no seminário.

Acontecia a certos analistas começarem a ler sem fazerem pausas, ou sem notificarem o grupo que, depois de terem discorrido sobre o paciente, haviam começado a reproduzir suas falas. Recitavam as palavras do analisando com expressão e mímica, como se estivessem conversando com o grupo. Involuntariamente, eu reagia de modos distintos quando isto acontecia. Algumas vezes eu introduzia, por iniciativa minha, a informação de que, a partir daquele ponto, eu havia começado a traduzir a fala do analisando. Em outras, eu hesitava e tentava obter um esclarecimento do analista para ter certeza de que se tratava da reprodução do diálogo analítico. Minha dúvida apontava para um clima de confusão entre analista e analisando, às vezes entre ambos e uma figura parental e estas indeterminações eram elementos que Bion utilizava nas suas interpretações.

Era o material das sessões, no seu efeito sobre o grupo, que determinava se Bion ia permanecer em silêncio, sem interromper a exposição, ou se a cortaria logo no começo. Ele levava em conta quando todos falavam ao mesmo tempo ou mudavam de cadeiras, ou se empilhavam num canto da sala e conectava estas ocorrências ao "analisando", somando-as àquilo que o analista, "funcionando como os ouvidos e os olhos do grupo", oferecia como pensamento bruto ainda por ser pensado.

Bion era tímido no contato pessoal, mas às vezes expressou desanimo e reclamou do clima de "psychobabble" (psicobabelcios ou psicobalbucios). Conversava pouco nos breves intervalos entre uma turma e outra e, apesar de próximos nas horas dos seminários, mandava-me recados através da mulher, Francesca. Foi através dela que recebi seu pedido para permanecer traduzindo os seminários durante mais uma semana, porque era-lhe mais fácil trabalhar com uma tradutora constante.

Minha participação era incômoda para alguns analistas. Uns ressentiam-se do meu privilégio de privar de uma companhia tão ilustre, outros rivalizavam comigo diretamente. Mas também havia aqueles que se associavam a mim, generosamente, nos momentos mais complicados da tradução. Estas diferentes atitudes durante os seminários serviam a Bion para caracterizar o tipo de transferência em operação, os supostos básicos e (muito mais raramente ) a constelação edipiana. Nos momentos em que todos pareciam estar falando ao mesmo tempo, qual seria e como operaria a resistência?

Durante a terceira conferência em São Paulo, tive oportunidade de colocar uma questão e a resposta de Bion mostra como ele permanecia sensível aos acontecimentos do grupo, mesmo diante de um auditório enorme. Em minha pergunta, aludi ao risco de usar-se o pensamento para propagar o não-pensamento e Bion iniciou sua resposta pausadamente, referindo-se à superpopulação do planeta e ao risco da bomba de neutrons. Quando a tradutora hesitou na palavra "impervious", a platéia se agitou para propor vários termos alternativos e, segundo Bion, naquela hora "alguém deixou cair uma bomba verbal!"

Quando ele esteve em Brasília, três anos antes, comentou: "se eu pensasse que isso é uma conferência, eu me lembraria de vários acontecimentos experimentados no passado como "antigas conferências", me lembraria de vários conhecimentos e nada novo ocorreria. Se eu pensasse que vocês querem ouvir algo que tenho a lhes dizer sobre isso, eu não observaria o curioso arranjo do público nas cadeiras desta sala (....)  Como eu tenho um preconceito a favor do que posso ver e ouvir com meus órgãos sensoriais, acho que vale a pena considerar o que
esta distribuição peculiar significa. O que ocupa esses lugares vazios? Que força é essa que impulsiona as várias personalidades nesta sala aos assentos do fundo?" Com humor, prosseguiu: "Considerando o grupo que tenho diante de mim, pessoas reunidas para ouvir algo como uma conferência, sinto que a pressão exercida pelos ouvintes é tão grande no sentido de que eu diga alguma coisa que eu mal posso esperar para ouvir o que eu tenho a dizer! É difícil conciliar isso com a noção que vocês tem a respeito daquilo que eu vou dizer"(....)  "Poderíamos dizer
que todas as idéias e pensamentos que ocorrem nesta sala desaparecem no momento em que se nota que há alguém ouvindo estes pensamentos."

Forma ou Conteúdo?

Empregamos páginas na montagem de um livro, numerando-o segundo uma ordem que vai da primeira até a última folha. Organizamos o texto impresso para que ele seja lido de cima para baixo, da esquerda para a direita, segundo a estrutura gramatical das frases. Deste modo, as idéias impressas se estendem ao longo do fio da narrativa numa seqüência temporal, dividida em capítulos, que passa a ser aceita sem crítica, como se a diagramação e o tempo histórico fossem parte daquilo que se pretende transmitir.

Descrevendo este impasse, Bion pergunta: "será correto supor que a idade dos répteis antecede à de Hitler, ou será que isto decorre de um traço, em nosso processo de pensamento, que se tornou uma aberração que não foi levada em conta e por isso, tornou-se parte do que foi observado?" . Ele entende que o padrão estético dos poetas chineses permitia-lhes sacrificar a sonoridade do poema para melhor cuidarem da beleza da sua forma desenhada sobre o papel e conclui que as convenções, que obrigam que uma mensagem seja representada de uma modo, e não de outro, impedem que se perceba que o que está sendo transmitido seja pouco mais do que um reflexo daquela mesma convenção.

Para descrever aquilo que ele designava pela letra "O", ou melhor, para comunicá-lo a um grupo de pessoas, era preciso que ele adotasse táticas que revolucionassem as formas convencionais do discurso, que quebrassem a idéia de uma fala com princípio, meio e fim, ou que impedissem uma enganadora transparência quando seu significado fosse intraduzível. Penso que esta era uma das intenções de Bion e que era isto mesmo que ele praticava nos seus seminários e nas conferências. Se as palavras dele funcionavam como pilares é porque ele delas precisava como plataforma de lançamento: elas deviam ser descartadas logo depois, para que se pudesse alcançar aquilo que insistia em permanecer oculto e não explicitado.

No entanto, como seria possível que um tradutor ousasse ir além da tradução das palavras que estivesse ouvindo, ou das que encontrasse escritas, para falar do que estivesse vivendo naquele instante sem, com isso, assemelhar-se aos psicóticos que dão mais atenção ao ritmo respiratório da fala de uma pessoa, do que às suas formulações verbais? Para reapresentarem-se as mensagens bionianas talvez fosse preciso que seus tradutores (passados, presentes ou futuros) habitassem as caóticas regiões da posição esquizo-paranóide para dali retornarem com uma linguagem nova.

Este problema foi introduzido por ele próprio (cap.107, livro 1) quando tratou da sua experiência com a psicanálise: " Não posso descrever essa experiência de um modo convincente para alguém que não a esteja partilhando comigo (...) É uma ilusão supor que a contemporaneidade a tornará comunicável. Mesmo enquanto ela estiver acontecendo posso não conseguir chamar atenção para ela, menos ainda se ela tiver sido uma experiência que eu soubesse um dia ter vivido, mas da qual não pudesse, então, ‘lembrar-me’ ".

Acho que Bion tinha alguma esperança no sucesso deste empreendimento porque, mesmo se ele acreditasse que "todos estes sonhos e coisas não nos conduzirão à descoberta de uma mente ainda mais distante e desenvolvida - porque tal mente não existe - ainda assim estes sonhos, fantasias e idéias brilhantes talvez pudessem ser observados de modo tal que revelassem a presença de alguns elementos em conjunção constante, assim tornando possível que se detectasse uma configuração subjacente(...) que tivesse realidade e sentido. E aquele sentido poderia então, como em um bom raio-X, ser interpretado".

Para mim não se trata de ter, ou não esperança de entender o que Bion dizia, ou de ajudar a quem me ouve, ou lê, a compreendê-lo melhor ou a dar-lhe uma interpretação mais precisa. Pretendo, apenas, oferecer meu testemunho crítico, porque não passei incólume na minha breve experiência ao seu lado.

As conferências que Bion fez em São Paulo, em 1978, foram cuidadosamente editadas por Francesca Bion, que delas eliminou as partes mais repetitivas e apagou as analogias mais cansadas. A diferença entre o que se passou no vivo das falas de Bion e o que acabou aparecendo por escrito, salta aos olhos de quem der-se ao trabalho de comparar os textos publicados e a gravação das conferências. É por este motivo que pretendo dar um exemplo que se baseia na sua última conferência de 1978 porque serve para ilustrar aquilo que observei ocorrer, de modo
semelhante, nos seminários clínicos, aos quais o acesso é restrito.

Os seminários de 1978 também foram bastante mutilados antes de serem publicados e sua ordenação não considerou as datas em que aconteceram, mas seguiram um critério desconhecido. O encontro 43 foi numerado como 10, o seminário 44 foi publicado como sendo o 21, e o último, como 25. Com isto, desapareceu o efeito cumulativo que se fazia sentir, a partir do primeiro seminário do dia, até o tema da conferência da noite - porque havia uma relação entre todos.

Esta conexão pode parecer indesejável na medida em que, se os seminários clínicos estiverem, de fato, relacionados temáticamente uns aos outros e servirem como uma antecipação ao tema da conferência, eles terão perdido o frescor de serem momentos únicos, reservados para os trabalhos de diferentes analisandos e analistas.  A não ser que, como o estou propondo aqui, se possa entender que a novidade de cada seminário não decorria do tema tratado, das inovações técnicas, ou de teorias revolucionárias.  A novidade, a meu ver, estava na experiência
emocional partilhável, atual e potente, que Bion deixava acontecer com o grupo, para estabelecer uma comunidade de "pensadores sem pensamentos" através da qual ele buscava transmitir ou captar uma idéia nova.

A evolução dessa sensibilidade, que atravessava grupos distintos, permanecia constante devido ao fator unificador da presença de Bion. Isto é o que se perde quando não se pode acompanhar o texto em sua ordem cronológica.  Apesar de valorizar as cautelas associadas ao sigilo profissional, gostaria de acreditar que os documentos, inalterados, possam permanecer arquivados até a data em que sua publicação não crie problemas.

Retornando ao exemplo anteriormente prometido:

Na primeira conferência que Wilfred Bion fez em Nova Iorque, um ano antes da sua série brasileira, ele apresentou um poema, de Kipling, que era obrigado a recitar quando menino. Nas palavras de Paulo César Sandler, tradutor para o português do texto das conferências, encontramos:

"Eu mantenho seis empregados honestos

Que me ensinaram tudo que sei;

Seus nomes são: O que, Porque e Quando

Como, Onde e Quem

Enviei-os para Leste e Oeste,

Enviei-os por terra e por mar;

Mas depois de todo este trabalho para mim,

Mandei-os descansar."

Quando Bion iniciou a sua última conferência no Brasil, ele também começou com este mesmo poema. Os "seis empregados honestos" do primeiro verso podem ter inspirado o título de uma publicação que agrupava suas obras: Aprendendo com a Experiência, Os Elementos da Psicanálise, Transformações e Atenção e Interpretação. O livro chamava-se "Seven Servants", introduzindo mais um "empregado" que ele convidava a descansar. E Bion, quem sabe, teria recitado este verso vezes sem conta, porque a editora decidiu eliminá-lo do texto da transcrição daquela conferência para evitar sua repetição.

No entanto, naquele dia, Bion fez questão de não recitar o poema com o qual pretendia iniciar a Décima Conferencia. Ele o levou por escrito, em uma pequenina folha de papel e pediu que a tradutora o dissesse em português. Depois, quando ela pediu-lhe permissão para ler as palavras em inglês, ele não permitiu. Logo em seguida, ele começou a falar sobre o mistério da interpretação de sons aleatórios, ou de mensagens numa língua desconhecida, para destacar uma idéia, também excluída da publicação. Ouvir corretamente o que está sendo dito,
ou mesmo entender as palavras que são pronunciadas, não implica que se esteja compreendendo, realmente, aquilo que está sendo falado. Ali, no auditório, mais do que a exposição de uma teoria, acontecia uma experimentação que permitiria sua realização. Este experimento, por não ter sido compreendido, foi suprimido em sua nova publicação.

Na minha opinião os mesmos versos não eram os mesmos versos cada vez que deles Bion se utilizava ao se expressar. Esta era uma das qualidades de sua fala que custei a apreender e foi por isso que raramente consegui "traduzir" o que se passava. Ao mesmo tempo, eu não sabia nem como comunicar esta descoberta, nem de que maneira transpor para o português aquilo que, difusamente, eu suspeitava estar sendo dito.

Cegar-se artificialmente?

Onde estão as neves de antanho?

O silêncio destes espaços infinitos me aterroriza!

A resposta é a doença da curiosidade.

As palavras acima salpicavam as falas e os textos de Bion, mas, além do seu significado e do contexto que o cercava, elas também serviam-lhe como sinais. Serviam como uma espécie de pontuação, marcas para as exclamações, vírgulas, intervalos, interrogações. Temos que contar quantos pontos e quantas vírgulas existem num texto, para depois cortar alguns e assim evitar as repetições? Devemos apagar as colcheias acumuladas numa pauta, ou desfazer a troca das claves de sol e de fá porque sempre parecem as mesmas? No entanto, ao falar sobre isto, sinto-me como Charles Kinbote comentando o poema "Fogo Pálido" de John Shade ...

Para Bion era " suficientemente ruim tentar traduzir para o inglês aquilo que quero dizer; portanto, dou graças ao fato de não ter que tentar traduzi-lo em nenhuma outra linguagem" e o que ele dizia, "ou parecia incompreensível, ou tão óbvio que não mereceria nem ser dito" mas, nos dois casos, daria sempre "uma impressão enganosa". Sua tradução seria ainda mais enganosa, mas penso que isto poderá não ser tão desastroso se alguma coisa daquilo que foi dito por Bion, nas palavras da sua linguagem "especial", tiver sido testemunhado por outras pessoas, ou tiver sido transmitido de alguma outra forma, ainda obscura .

(Trabalho apresentado no Simpósio comemorativo dos 100 anos de nascimento de W.R.Bion, promovido pela Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro e publicado no Caderno do Simpósio)

Notas

- "At first, I thought I must have an adastral (?) personality who had far more sense in books than I had given it credit for!" ( 9.10.1977) A palavra "adastral" não consta dos dicionários que possuo, mas fui lembrada de uma frase latina "per aspera ad astra" que, segundo descobri, era o lema da Real Força Aérea Britânica (RAF): "por asperos caminhos até alcançar as estrelas".  No entanto, não sei como melhor traduzir "adastral personality".

- Conferir o capítulo 229 do livro 1, ( "The Dream") da trilogia "A Memoir of the Future".

- conferir texto da "Segunda Conferência" em Brasília, publicada na revista ALTER, vol. 6, n0.2, 1976.

- cf. capítulo 95 do livro 1 ( "The Dream") da Trilogia "A Memoir of the Future", Ed. Imago.

- Cf. Vladimir Nabokov : "Pale Fire" ( Everyman’s, 1995).

- Ver no livro "Conversando com Bion", na tradução de Paulo C.Sandler, o texto da quinta conferência em São Paulo.

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vi 1999